A partir de hoje, agora, já, EscárniOficina passa a atender em novo endereço. Só o que muda é a apresentação e a residência. A idiotice estapafúrdia lambuzada de experimentação leviana continua a mesma. Clique no link abaixo e espione:
http://verbeatblogs.org/escarnioficina/
Terça-feira, Novembro 11, 2008
Segunda-feira, Novembro 03, 2008
Mergulho no sal
É noite acabada já e na frente da casa a rede roxa ocupada por alguém roncante e os pés molhados do orvalho na relva mas tudo manda não dormir. Uns bichos estranhos voando num tráfego e zumbido constante e só a luz do sol sem ele ainda, e ainda martela de leve com peso no fundo a voz da vocalista careca da banda na madrugada cantando num Yodeling rasgante e meio desafinado, amuralhada pela bateria demente daquele magro de moicano suando sentado na banqueta baixa de madeira – os braços frenéticos. Mariazinha de blusa algodão gola v plissada e leve de frente pra mim, eu falava da mosca presa no âmbar cor de mel que no decote pingava da corrente prata no pescoço. E aí naquele breque inicial da segunda música ouvi o olho da Mariazinha gritar e toquei seu pescoço e senti o suor e o roçar da corrente e avancei um beijo na boca dos lábios finos e o gosto dum recente cigarro. E a noite toda depois disso parecia aquele beijo interminável dançante e mordido com pausas curtas pra beber e fumar e respirar quietos por fora. A trilha sonora que vinha do palco (tapete bege nuns compensados sobre vários engradados de cerveja) era da banda Verdureira Friqui, um caos barulhento e sujo de garagem esfumaçada. A gente não disse nada sério o show inteiro e eu tremia um pouco e olhava naqueles olhos uns caminhos doídos escondidos no preto. E então rolava outro beijo e mais silêncios de frases que só desconversavam. A Verdureira Friqui abandonou o palco recolhendo instrumentos e aí retumbou pelas caixas de som aquele hardcore inglês com letra linguajar chulo que sempre esqueço e não sei quem toca. E Mariazinha pegou minha mão e era a hora que não precisava ser e me vazou um olhar canino de souvenir definitivo e saiu, girei a banqueta pro balcão e bebi uma dose num gole pedi outra e vi no espelho sujo atrás do barman a blusa branca de algodão desaparecendo atrás das portas fechadas. Minha mão esquerda apalpando aleatoriamente as ninharias dentro da bolsa. Outra dose posta na minha frente. E agora que o sol apareceu todo percebo o ronco alto vindo da rede roxa na frente da casa. E ouço também como se acordasse o quebrar rouco e grave das ondas seis terrenos abaixo. E me decido não tão descontente por um mergulho. E olho pra trepadeira nas treliças de arame, umas formigas e insetos rodeando o íntimo duma tumbérgia aberta. Parecem tão tranqüilos os bichos pousados na carne da flor. Penso em fotografar mas desisto. Passo a língua nos lábios. E saio caminhando na pressa inevitável de ansiar o mergulho gelado no sal de qualquer onda que venha.
Sábado, Outubro 25, 2008
Axiomas apócrifos de um anônimo
= Todas as telefonistas que se chamam Bárbara são loiras.
= Galileu estava errado: O Avaí ganhou a última partida fora de casa.
= A verdade é uma falácia no máximo verossímil.
= A realidade é uma apresentação putativa.
= Seres extraterrestres não possuem inteligência suficiente para a construção de naves espaciais.
= Para alguns, a morte é apenas orgia de vermes, a execução banal da cadeia alimentar.
= Se nunca é tarde demais, os moribundos não existem.
= Olhei nos olhos da Medusa e ela apenas latiu.
= Não sei o que é a beleza, mas quando a vejo reconheço.
= Édipo matou o pai, foi rei, casou com a própria mãe, foi irmão de seus filhos, furou os olhos e virou um simples complexo burguês.
= Se Deus é brasileiro, está exilado.
= Somos a reencarnação de partículas, aleatórias ou não, de nossos antepassados.
= Certas músicas apalpam indivíduos num assédio consentido.
= As pragas e pestes e guerras são inofensivas perto da veloz evolução epidêmica das tecnologias.
= Por que não preservar o tradicional quando este não pode ser melhor e não dá prejuízo?
= Uma estátua em cada praça para os camundongos de laboratório por favor.
= Para alguns, arte é feiúra e beleza é publicidade. E às vezes é isso mesmo.
= Se a carne é fraca, o espírito é de algodão doce
= Continua montando aquele quebra-cabeças com a imagem, o som e sensações do Mundo em tamanho natural.
= Puta merda!, disse o carona sem cinto ao constatar que não havia puta-merda.
= Se a vida é professora, eu sou aquele mau aluno sempre de castigo.
= O Pop só fica bom quando começa a ser desprezado.
= Tudo acaba em bacanais solenes.
= É impossível quebrar o protocolo do caos.
= Velma Middleton não faleceu.
Ass: Um Anônimo
Postscriptum: As sentenças acima foram encontradas rodopiando no Minuano das cinco e vinte, estavam manuscritas numa folha pautada. Exames posteriores de grafoscopia revelaram que a caligrafia da assinatura não correspondia à grafia dos aforismos.
= Galileu estava errado: O Avaí ganhou a última partida fora de casa.
= A verdade é uma falácia no máximo verossímil.
= A realidade é uma apresentação putativa.
= Seres extraterrestres não possuem inteligência suficiente para a construção de naves espaciais.
= Para alguns, a morte é apenas orgia de vermes, a execução banal da cadeia alimentar.
= Se nunca é tarde demais, os moribundos não existem.
= Olhei nos olhos da Medusa e ela apenas latiu.
= Não sei o que é a beleza, mas quando a vejo reconheço.
= Édipo matou o pai, foi rei, casou com a própria mãe, foi irmão de seus filhos, furou os olhos e virou um simples complexo burguês.
= Se Deus é brasileiro, está exilado.
= Somos a reencarnação de partículas, aleatórias ou não, de nossos antepassados.
= Certas músicas apalpam indivíduos num assédio consentido.
= As pragas e pestes e guerras são inofensivas perto da veloz evolução epidêmica das tecnologias.
= Por que não preservar o tradicional quando este não pode ser melhor e não dá prejuízo?
= Uma estátua em cada praça para os camundongos de laboratório por favor.
= Para alguns, arte é feiúra e beleza é publicidade. E às vezes é isso mesmo.
= Se a carne é fraca, o espírito é de algodão doce
= Continua montando aquele quebra-cabeças com a imagem, o som e sensações do Mundo em tamanho natural.
= Puta merda!, disse o carona sem cinto ao constatar que não havia puta-merda.
= Se a vida é professora, eu sou aquele mau aluno sempre de castigo.
= O Pop só fica bom quando começa a ser desprezado.
= Tudo acaba em bacanais solenes.
= É impossível quebrar o protocolo do caos.
= Velma Middleton não faleceu.
Ass: Um Anônimo
Postscriptum: As sentenças acima foram encontradas rodopiando no Minuano das cinco e vinte, estavam manuscritas numa folha pautada. Exames posteriores de grafoscopia revelaram que a caligrafia da assinatura não correspondia à grafia dos aforismos.
Sexta-feira, Outubro 17, 2008
Hoje ontem ainda
Hoje o lotação Menino Deus ultrapassou a praça Argentina e a Edith Piaf cantava as folhas mortas nos meus ouvidos, eu parei de contar moedas e olhei pela janela uma revoada meio triangular de pombas pairou bem perto da janela e subiu traçando um meio círculo e desapareceu por cima do viaduto e o céu nublado por trás e eu respirei fundo. Ceninha básica e cotidiana mas me fez muito bem, ainda mais com aquela trilha de fundo: a Edith, xará da minha querida vó, carregando nos erres e na melodia. E nem lembrei na hora que tinha visto ontem um pouco mais adiante (talvez da mesma janela) a fotografia de um amigo meu bonito com o sorriso de dentes perfeitos na publicidade estúpida de uma companhia telefônica mafiosa e era triste olhar aquilo. Porque tantas pernadas já passadas e os caminhos bifurcados do presente, muitos camaradas em outras praias distantes e nostalgia hedionda off the rocks. Mas então, hoje outra vez, larguei as moedas na mão do motorista e desci os degraus, acendi um careta na chama do meu bic azul. E na rua dos Andradas eu vi um pônei petista (pelo menos parecia um pônei). Um desses cabos eleitorais girava no meio do calçadão com o pônei vestido com bandeiras do Partido. Sacanagem com o pônei que não consegue ter escolha. Mas talvez seja melhor não ter que escolher. E talvez seja melhor que alguém te vista com uns panos coloridos e uns emblemas incompreensíveis costurados e te puxe pelas rédeas cidade adentro. E talvez... ah, deixa pra lá. O mundo é bom, a vida é justa e a tinta da minha caneta secou
Terça-feira, Outubro 07, 2008
Reminiscências brumais
Amarrei o cadarço do meu Kichute com duas voltas na canela e bebi outro gole de Mountain Dew com Velho Barreiro. Tinha um gosto ruim mas já começava a inebriar. O Marcelo jogava X-Man no vídeo game, masturbando enlouquecido o joystick ele tentava atingir o orgasmo com aqueles bonecos nus e deformados do jogo da Atari. O tio Paredes olhava de vez em quando praquele desenho tosco e broxante na tela e dizia: Isso é bom, isso é bom. Eu dei uma risada com um desses isso-é-bom do tio e me babei todo e passei a mão na boca e no queixo e limpei a mão na cortina bege da despensa. O tio Paredes se afundou quieto de volta nos classificados do jornal e o Marcelo xingou a mãe de todos ali, não tinha conseguido chegar lá. Iniciou outra jogada e foi manejando o joystick pra avançar e recuar o seu boneco por aquele labirinto pra esquivar o pau das tesouras e dos caranguejos e das dentaduras. O Twiggy encostou a orelha na minha perna e me arrepiei, ele vinha desde a porta da cozinha se arrastando no frio do azulejo naquele rastejar de cão velho cego manco. Bebi um gole do MountainDewVelhoBarreiro e me agachei e passei a mão no pêlo do Twiggy. Bem no canto da cozinha, perto do botijão de gás e das vassouras de palha, o Bibi atacava o Forte Apache com seus índios berradores e ao mesmo tempo defendia o Forte com seus ‘bravos’ soldados da cavalaria. Me lembro bem quando olhei uma das torres do Forte cair e dois soldados pularem e a tribo invadir aos berros. Mas era sempre como nos filmes e nos livros de História que mandavam a gente ler — os índios do Bibi também se fodiam. Quando olhei pra cima, a tia Rita estava lá me olhando com aquele torto nas sobrancelhas, ela segurava o meu copo, cheirou e me puxou pelo braço. Gritou comigo, Já te falei, Não pode, Cachaça, Faz mal, E de manhã, Seu bostica; e me puxou a orelha de leve e gritou com o tio Paredes que levantou os olhos dos classificados e coçou o bigode num murmúrio covarde (Muitos anos depois, me contaram que a tia Rita, quando eu era bebê, convenceu minha mãe a passar aguardente no bico dos peitos pra atiçar minha fome de leite). Ouvi um ruído que vinha do vídeo game e logo depois um grito índio do Bibi. Então me lembrei dos gatinhos e saí correndo e gritei pro Marcelo e ele demorou um pouco mas veio atrás. E abrimos a porta de madeira velha e verde da casinha e aquela cena horrível. O meu filhote preto (que também era do Bibi e da Stelinha) deitado com um buraco imenso e vermelho na barriga. E o filhote do Marcelo (que também era da Valqui) não tinha mais cabeça, só um olho sobrava naquele avermelhado vivo de carne morta que saía do corpo do gatinho. E eu comecei a chorar e o Marcelo também e a tia e o tio e o Bibi saíram da cozinha. O tio Paredes falou que aquilo só podia ter sido coisa das ratazanas que andavam por baixo da casinha. E eu não entendia como um rato podia fazer aquilo com um gato, aquilo desmentia tudo que eu já tinha ouvido até ali. E o tio disse que tinha ratazanas pesando meio boi debaixo daquela casinha. E eu já podia imaginar os pesadelos que ia ter com as ratazanas e o olho solitário do gato por toda a minha vida em diante. Eu e o Bibi e o Marcelo paramos de chorar e, fora tia Rita que saiu pelo jardim a regar plantas, entramos na cozinha. O Twiggy dormia de barriga no azulejo. O tio Paredes seguiu procurando nos classificados sem achar nada, eu servi outro copo de MoutainDewVelhoBarreiro, o Marcelo finalmente conseguiu um orgasmo naquele jogo pornográfico, e os índios do Bibi se foderam mais uma vez.
Domingo, Setembro 28, 2008
Não é fuga
É, meu irmão, não quero mais gastar meu tempo criando outras vidas enquanto ainda posso inventar a minha. Quero gastar a sola das botas na buraqueira da estrada, procurando perfume transitório de lar e pulsão nas curvas e retas. Não penso em guardar dinheiro e adquirir eletrodomésticos essenciais ou meios de transporte metálicos em quatro rodas que só vão girar quando o trânsito da cidade resolver desengarrafar. Os anos em que vegetei por aqui investiram essa urgência dominante em mim agora. Tenho que partir. Deixo minha coleção de discos e livros contigo, mesmo que nossas preferências sejam tão discordantes e tu não vá fazer grande uso dela. Escreve, escreve aí por mim, meus dedos querem digitar carne e sujeira e grama e não teclas de plástico. Cansei de imaginar personagens em situações irreais e verossímeis, quero ver eu mesmo o que for nos lugares que conseguir alcançar. Não, não é fuga não, pode crer. É perseguição mesmo. De repente, dentro dumas, todo o resto de tudo é que fugiu de mim, mesmo que tenha continuado perto, ao alcance da mão. E tudo que eu enxergo ao fechar os olhos são mapas amassados e horizontes e chuva e poeira no ar e lonjura. E sinto o chão queimando meus pés e preciso correr pra começar a andar. Chega de limo e teias e filosofemas imóveis nos mesmos bairros e bares e ruas. Quero levar minha sombra pra passear sem hora ou dia ou mês ou ano marcados pra voltar. Não precisa entender, irmão. Dá um beijo e um abraço e chora comigo a previsão da saudade. E me empurra e diz vai embora!, antes que eu paralise, vai.
Terça-feira, Setembro 16, 2008
Impossível regresso
Quando ele voltou de Xangri-lá, sua casa estava em outra rua, construída com diferentes materiais, mobiliada com outros modelos de mesas e cadeiras e armários e camas. Sua família não carregava mais o sobrenome italiano e todos restavam transfigurados física jurídica e psicologicamente. Seus amigos tinham dinheiro no banco e vestiam roupas sofisticadas em reuniões de conversas sofisticadas umedecidas por bebidas sofisticadas. Sua escola ensinava matemáticas inexatas e obscuras, biologias mitológicas e idiomas impronunciáveis. Suas bandas punk-pop prediletas tinham novos nomes e integrantes e tocavam e cantavam em ritmos e tons e timbres distintos músicas desconhecidas com letras alteradas na essência e nas margens. Quando ele voltou de Xangri-lá, seu Labrador Retriever chamado Pancho substituíra-se por um siamês chamado Gato. Suas roupas com etiquetas de outras grifes exibiam cores mais vivas que de costume e exalavam perfumes estranhos de amaciantes antes ignorados nas prateleiras dos supermercados. Sua comunidade religiosa ouvia liturgias misteriosas ministradas por um pregador mascarado louvando divindades minerais. Quando ele voltou, suas fotografias registravam instantes desatentos e alheios à sua memória. Os livros que mais lia antes de voltar mostravam agora capas transformadas com títulos e autores trocados nas lombadas forasteiras e eram escritos em idiomas ilegíveis. As ruas de sua cidade não tinham os mesmos nomes de antes e levavam a destinos extravagantes. E dominado pelas evidências, desertou suas bagagens afetivas e passou a acreditar em tudo, em todos... quando ele voltou de Xangri-lá.
Sábado, Setembro 06, 2008
Obituário de uma assombração nítida
Guardei a escova de dentes úmida no armário do quarto de minha irmã. Fiz aquilo como se fosse um ritual cotidiano (hora e meia depois me dei conta de que não era). Fechei o armário e me afastei. A porta rangeu bocejante quando saí do quarto. Caminhei pelo corredor na penumbra do fim de tarde sentindo o pé afundar no carpete. Liguei a luz da sala e olhei para os dois candelabros sem vela sobre o tampo envernizado do aparador e lembrei da morena alta que conheci na semana retrasada: é surfista e odeia praia. As associações mentais urdidas no meu pensamento são cada vez mais obscuras (penso agora). Sentei no sofá e fiquei encarando a tv desligada. Senti cheiro de cerveja, não descobri de onde surgiu (também não aprofundei investigações). Há mais de dois meses não bebo alcoólicos, tudo pra evitar o crescimento dos cogumelos nos dedos do meu pé. Era estúpido, mas eu ainda sentia aquela ausência palpável na solidez da atmosfera, feito uma brisa vermelha no abafado da noite. Como insetos orbitando minha cabeça, eu via recortes nítidos e velozes da máscara blasé e seus lábios molhados e carniceiros. Esbofeteavam meu rosto em rasantes suicidas. Deitei de costas no chão e consegui trinta e cinco abdominais acelerados. Levantei ofegante e fui até o banheiro. Vi a rachadura aberta no teto e imaginei aquele bloco de gesso branco despencar em pedaços na minha cabeça. Um dia vai acontecer (penso agora). Despi a bermuda e liguei o chuveiro frio, entrei debaixo daquele jato esférico. Quase não conseguia respirar enfiando o rosto n’água. Sempre achei que um banho fosse uma alegoria banal demais. Mas parecia que aos poucos eu rasgava a fantasia de bucéfalo vestida há uns meses atrás. Todos aqueles trapos descendo numa espiral ralo abaixo. Represei a correnteza em dois giros no metal prateado e respirei fundo três vezes. Enquanto me secava com a toalha do Robin Hood disneyniano, senti saudades da colônia de aranhas que habitava meu quarto. A metrópole de teias acima da caixa branca onde a persiana se esconde enrolada. E senti saudade também da aranha sem nome que por uma temporada alugou a caixa acústica do meu violão à prova d’água. Mas claro! não cheguei a sentir falta dos cupins voadores que perdiam as asas translúcidas com formato de pingo. De repente eu me enxerguei reverberado no espelho e vi meus lábios comprimidos e ouvi o assobio improvisado. Só me faltava sair dançando nu pela casa agora. Deixei pegadas úmidas no carpete até o quarto. Vesti minha samba-canção cor de vinho e acendi um cigarrillo rubio philip morris argentino, regalo do Iel. Sentei na cadeira de frente para o computador. A tela desmanchou uma foto da Audrey Hepburn rindo e foi montando outra do Hotel Majestic. Coloquei um cd da Banda BlackRio pra girar sonoro e abri o editor de texto. Por alguns segundos mergulhei hipnotizado na brancura da página. Estalei os dedos. As primeiras palavras digitadas saíram titulares: Obituário de uma assombração nítida. Limpei com a língua um resíduo preso entre os dentes e pensei na escova úmida no armário da minha irmã. E comecei a escrever.
[Da série Ficção em MiniRealidades]
[Da série Ficção em MiniRealidades]

Domingo, Agosto 31, 2008
Inverno destilado
Uma vez era noite
Aconteceu o seguinte
Eu perdi tudo que importa
E mergulhei na garrafa
Costurei na calçada
E o inverno arrombou
Enumerando ressacas
Pequenos headbangers fortes
No mosh total do meu crânio
Percussão maldita e acelerada
No batimento cardíaco
Solene demente
Alucinei à deriva nas ondas
Distilled from sugar cane
Na lacrimália dos dramas
No vilipêndio do bem
Ajoelhado nas britas
De sonho e de nada
Eu quase, quase não vi
Mas o inverno morreu.
Aconteceu o seguinte
Eu perdi tudo que importa
E mergulhei na garrafa
Costurei na calçada
E o inverno arrombou
Enumerando ressacas
Pequenos headbangers fortes
No mosh total do meu crânio
Percussão maldita e acelerada
No batimento cardíaco
Solene demente
Alucinei à deriva nas ondas
Distilled from sugar cane
Na lacrimália dos dramas
No vilipêndio do bem
Ajoelhado nas britas
De sonho e de nada
Eu quase, quase não vi
Mas o inverno morreu.
Terça-feira, Agosto 19, 2008
“Nada melhor do que estar errado”
Segunda-feira chuvosa, mais uma entre tantas. Antes de entrar, um cigarrinho básico que nenhum fumante é de ferro. O Saldanha me mostrou a tatuagem feita do autógrafo rabiscado no braço pelo David Lynch. E entramos no Hotel Sheraton sob as caretas de mau (cinematográficas) de um segurança do shopping Moinhos. Subimos por um elevador dourado espelhado metido a chique até o quarto andar. Era lá, numa saleta cheia de cadeiras e jornalistas e fotógrafos, que aconteceria a coletiva de imprensa do cineasta alemão Wim Wenders. Wenders veio a Porto Alegre para apresentar a palestra “Cinema além das fronteiras”, na programação do evento Fronteiras do Pensamento (Copesul Braskem).Cabelos longos e falando inglês com algum sotaque, o cineasta afirmou de início que nasceu num país apagado pelos efeitos da segunda guerra. Wenders desde cedo sempre quis saber como viviam as pessoas em outros lugares do mundo, chegou a viajar para a Holanda com sua primeira bicicleta, a curiosidade, segundo ele, o instigava a conhecer novos países: “Sou um cineasta e também um fotógrafo, mas viajar se tornou minha profissão”.
Falando sobre a força que a “sensação de estar em algum lugar” exerce sobre ele, Wenders fez questão de salientar que seus filmes não são conceituais nem cerebrais.
Sobre cinema brasileiro o cineasta afirmou: “Eu lembro de ter visto Antonio das Mortes (O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha) e achar que era uma das melhores coisas que já tinha visto”.
Questionado a respeito de seus pais cinematográficos, Wenders recordou seus primórdios: “Quando eu comecei meus pais artísticos eram pintores. O cinema alemão possuía apenas avôs. Só fui ver os filmes de Fritz Lang anos depois em Paris”.My American Adventure - Em sua incursão cinematográfica pelos Estados Unidos, Wim Wenders descobriu (o óbvio) que nunca se tornaria um diretor norte-americano: “Eu sou uma romântica alma alemã”.
Nos anos noventa, o cineasta parou de ler as críticas. Wenders não queria acreditar nas críticas positivas e muito menos pensar que era um pedaço de merda lendo as negativas.
Alguém sentado à minha frente perguntou quão traumática havia sido a filmagem de Um filme para Nick (Nick’s Movie – Lightning over water). Escrito em parceria com o diretor Nicholas Ray, o filme mistura documentário e um pouco de ficção e retrata os últimos dias de Ray, na época em fase terminal de câncer. Segundo o diretor alemão, ele pensou em interromper as filmagens por causa do estado de Ray, mas o médico insistiu que parar de filmar era a única coisa que não podia ser feita: “Toda a equipe do filme lembra muito mais a experiência do que o trabalho finalizado”, disse Wenders.
Sobre o documentário Quarto 666 (Chambre 666, 1982), em que diretores de diversos países comentam sobre o futuro do cinema, o cineasta lembrou o tom de pessimismo retratado no filme como um erro. Afirmou que o único diretor que tinha razão era o italiano Michelangelo Antonioni com sua visão otimista sobre o cinema: “Às vezes não há nada melhor do que estar errado”, completou o diretor alemão.
Wim Wenders falou ainda sobre algumas vantagens da tecnologia digital para o cinema, como por exemplo um ensaio filmado que pode acabar se transformando na cena pronta.
Na saída, o Saldanha reclamou da barreira que armaram para evitar o contato com Wim Wenders. Ele queria um autógrafo do homem no braço pra tatuar depois. Esperando na parada de ônibus pelo C3, falei pra ele {a respeito de outro assunto maior que não vem ao caso (nem sei se ele ouviu)} que tudo que acontecia, tinha que acontecer. Terrível, tudo bem, mas achei que encaixava bem no episódio da tatuagem.
Horas depois, o Saldanha me liga dizendo que foi pra UFRGS, na saída da palestra do WW e falou com a mulher dele, a fotógrafa Donata Wenders, sobre a idéia de tatuar o autógrafo do cineasta. “You’re crazy”, foi a resposta de Donata. Mas, pra terminar, o alemão acabou rabiscando alguma coisa no braço do Saldanha acima do perfil já tatuado da Nina Simone. Quero ver que tatuagem vai sair disso. Invejo essa paixão de pele rasgada pelo cinema.

Sexta-feira, Agosto 08, 2008
Manifesto corporativista-global
Se há uma prática humana que apesar de banal (e até compreensível) é infinitamente abjeta e repugnante, esta prática é a do corporativismo. Pode surgir de uma organização de classes profissional, religiosa, social ou et ceteras, não interessa, será sempre energúmena (está bem, com algumas parcas e risíveis exceções). Nós, do Conselho Editorial de EscárniOficina, presumimos que o corporativismo seja algo natural e que nasça de uma forma um pouco mais elaborada de instinto (e seja registrado que louvamos o instinto como uma das formas mais interessantes de inteligência), mas somos absolutamente contrários a este fétido procedimento. Propomos, então, já que parece existir uma suposta impossibilidade de evitar tal prática, uma forma mais abrangente de corporativismo. Aos que possuem a faculdade do raciocínio, sugerimos que atuem a favor de todo o ser vivo, animal ou vegetal, e também (por que não?) de toda a matéria inanimada presente neste planeta que vos fornece o chão e outras coisitas mais. Não é pedir muito, meus bruxos, que se adote um corporativismo terráqueo total e irrestrito na sociedade global. Não possuímos ainda notícia verossímil sobre vida inteligente em outras bandas planetárias, mas se algo surgir aí poderemos refletir sobre uma possível ampliação do corporativismo terráqueo. (Um de nossos colegas do Conselho Editorial manifestou posição contrária ao conteúdo do apontamento acima descrito. O bom senso da maioria esmagadora de nossos membros permitiu que trancássemos tal colega no armário da despensa, com a promessa de soltá-lo assim que ele mude de idéia). E temos dito...
Terça-feira, Agosto 05, 2008
Irmandade
Bernard quer sumir (o elogio do cacique ainda ecoando na mente). Lidara com o irmão de forma limpa. Ninguém perguntou como fez, nem onde. Importava era o fato. Marcus, o irmão, tornara-se um problema de única solução. Falava sobre tudo e com todos. Comentava em altos risos esquemas íntimos da organização. Arranjava brigas com associados e nunca conseguira explicar o caso da mala rasgada. O cacique não demorou em falar com Bernard, pedindo atitude imediata como prova de lealdade e esperteza.
Bernard voltou com as areias do deserto cobrindo seu carro. Entrou no bar e foi aplaudido (abraços fortes) pelos ocupantes das três mesas cativas. Tony, o barman, perguntou qual bebida ele ia querer. As próximas rodadas seriam por conta do cacique. O lugar voltou à rotina habitual, o murmúrio, copos batendo, Fred no piano, às vezes Laura levantava para cantar algum clássico enquanto balançava o traseiro gordo.
Sentado numa das banquetas do balcão, Bernard toma a oitava dose de conhaque num gole só. Levanta numa tontura leve. Entra na primeira cabine do banheiro e sobe a tampa da privada. Abre o zíper e sente a porta machucando suas costas. Vira-se. É o rosto enrugado de sua mãe, Vera, mãe de Marcus. Ela procura o olhar do filho desenhando um V aberto com as sobrancelhas, o pijama de lã surrada sob o casaco roxo, a mão direita no bolso. Ele segura a testa e escuta o fantasma dos aplausos, a pressão dos abraços. Bernard quer sumir: o elogio do cacique ainda ecoa na mente.
Bernard voltou com as areias do deserto cobrindo seu carro. Entrou no bar e foi aplaudido (abraços fortes) pelos ocupantes das três mesas cativas. Tony, o barman, perguntou qual bebida ele ia querer. As próximas rodadas seriam por conta do cacique. O lugar voltou à rotina habitual, o murmúrio, copos batendo, Fred no piano, às vezes Laura levantava para cantar algum clássico enquanto balançava o traseiro gordo.
Sentado numa das banquetas do balcão, Bernard toma a oitava dose de conhaque num gole só. Levanta numa tontura leve. Entra na primeira cabine do banheiro e sobe a tampa da privada. Abre o zíper e sente a porta machucando suas costas. Vira-se. É o rosto enrugado de sua mãe, Vera, mãe de Marcus. Ela procura o olhar do filho desenhando um V aberto com as sobrancelhas, o pijama de lã surrada sob o casaco roxo, a mão direita no bolso. Ele segura a testa e escuta o fantasma dos aplausos, a pressão dos abraços. Bernard quer sumir: o elogio do cacique ainda ecoa na mente.
Sábado, Julho 26, 2008
Calor pegajoso
Esquilos subiram por minhas pernas e um deles mais avermelhado me encarou com seus olhos verdes e amarelos, os outros, eram muitos, mordiam minha carne e eu sentia frio e aí acordei pelado, as cobertas no chão. O cheiro de creme no quarto era insuportável, vesti meu terno riscado e o sobretudo preto de meu tio Alfred, fechei a porta com dois giros na chave e desci as escadas de dois em dois degraus. A manhã fria e cheia de sol nos prédios e no chão concreto era o cenário de gente apressada e automóveis no fluxo lento da falta de rua. Paguei meu Irish coffee e meu croissant de chocolate e consegui uma cadeira perto da janela. Do outro lado da rua, um cara magro de abrigo verde e laranja e capacete cinza segurou a porta com o pé direito, esticou o corpo e pegou uma das rodas encostada na parede, os aros refletiram brilho de sol nos meus olhos, bebi mais um gole, a roda já tinha sumido pra dentro do edifício, agora o cara magro tinha dificuldade pra segurar a porta e alcançar a bicicleta manca de uma roda só, desapareceu dentro do edifício e voltou com a roda amputada e a escorou na porta, ela escorregou e ele ajeitou a borracha do pneu na madeira e saiu em dois passos agarrou o quadro verde abacate da bicicleta e entrou. Eu preciso arranjar dinheiro, pensei, não quero mais andar a pé, de ônibus ou metrô. Pedi outro Irish e pensei em Sabrina. Aquilo que ela me falou ontem era preocupante. Disse uma tia-avó sua morrera de combustão espontânea depois de um passeio na roda-gigante, eu tentei falar mas... Sabrina mudou de assunto e ficou séria, parecia chateada, me deu um beijo longo e sorriu e nos separamos. Bebi os últimos goles do café pensando na minha sorte ameaçada por algumas histórias saídas da pequena boca de Sabrina. Pensei nas peles nuas e pegajosas e no calor e na orquestra de Ray Conniff soprando Hello, Dolly! no volume três e lembrei do cheiro tonteador de creme no quarto. Na rua, ajeitei o sobretudo e as mãos nos bolsos e dobrei a esquina. Caminhei lentamente evitando a sombra dos prédios derramada no cinza da calçada. Tinha meia hora antes de me encontrar com Sabrina no Central Park West.
Sábado, Julho 19, 2008
Foco & Vício
Foco manual
Meus dedos tremem de lembrar
O lerdo e manual giro nas lentes
Pra medir o ajuste querido
No assunto escolhido a focar
Bendito Vício
Ei, vocês aí manejando essas cordinhas que quase posso ver presas em meus dedos e que sobem até aonde não se enxerga lá muito bem lá em cima, por favor injetem overdoses cavalares de ilusão e ingenuidade na veia saliente da minha testa. Tenho de sobra já sei, já ouvi essa antes, mas quero mais, preciso mais, faço qualquer coisa, por favor, vamo lá, quebrem essa, tenho que..............................
Meus dedos tremem de lembrar
O lerdo e manual giro nas lentes
Pra medir o ajuste querido
No assunto escolhido a focar
Bendito Vício
Ei, vocês aí manejando essas cordinhas que quase posso ver presas em meus dedos e que sobem até aonde não se enxerga lá muito bem lá em cima, por favor injetem overdoses cavalares de ilusão e ingenuidade na veia saliente da minha testa. Tenho de sobra já sei, já ouvi essa antes, mas quero mais, preciso mais, faço qualquer coisa, por favor, vamo lá, quebrem essa, tenho que..............................
Sábado, Julho 12, 2008
Albergue Alea Jacta Est
Sábado, Julho 05, 2008
Duas notas fim-de-tarde
Por favor, chutem a minha cara, lá vou eu me afundar em comentários políticos mais uma vez:
Uma proposta do presidente da Assembléia Legislativa gaúcha, Alceu Moreira, eleva o salário da governadora Yeda Crusius de R$ 7,1 mil para R$ 17,3 mil. Pela mesma proposta, os vencimentos do vice-governador e dos secretários passam de R$ 6,1 mil para R$ 11,5 mil.
Num mundo e país e estado ideais eu até acharia justo tal aumento. Mas na aldeia real em que a gente vive, é um absurdo. Alceu Moreira justifica a proposta ao comparar o salário atual da governadora com o de outros estados. O gaúcho é um dos mais baixos do Brasil. Mas em nossa modestíssima opinião, o presidente da Assembléia deveria, mesmo não sendo sua função, lutar para o rebaixamento dos salários de governadores de outros estados que paguem mais aos seus caciques do Executivo. E se a governadora não está satisfeita pode renunciar em favor de um vencimento mais digno na iniciativa privada. Sete mil reais pra realidade nossa é ultraje bastante. E tem outra, pela legislação atual, Yeda vai sair do trono em breve e continuar recebendo estes sete mil até morrer sem precisar fazer mais nada. Esse esquema de pensão vitalícia para ex-governadores é coisa de primeiro mundo, um luxo nauseabundo.
……………………………………..
E eis que perdi mais um show em Porto Alegre: Echo & The Bunnymen no Opinião. E isso que o preço não tava dos piores. Já me acostumei, é uma tradição na minha história. A primeira vez que o B.B.King veio pra cá, eu não fui e pensei porra, esse nunca mais, perdi. Mas alguns anos depois, ele voltava pra mais uma apresentação em Porto Alegre. E é óbvio que eu também não fui…
Uma proposta do presidente da Assembléia Legislativa gaúcha, Alceu Moreira, eleva o salário da governadora Yeda Crusius de R$ 7,1 mil para R$ 17,3 mil. Pela mesma proposta, os vencimentos do vice-governador e dos secretários passam de R$ 6,1 mil para R$ 11,5 mil.
Num mundo e país e estado ideais eu até acharia justo tal aumento. Mas na aldeia real em que a gente vive, é um absurdo. Alceu Moreira justifica a proposta ao comparar o salário atual da governadora com o de outros estados. O gaúcho é um dos mais baixos do Brasil. Mas em nossa modestíssima opinião, o presidente da Assembléia deveria, mesmo não sendo sua função, lutar para o rebaixamento dos salários de governadores de outros estados que paguem mais aos seus caciques do Executivo. E se a governadora não está satisfeita pode renunciar em favor de um vencimento mais digno na iniciativa privada. Sete mil reais pra realidade nossa é ultraje bastante. E tem outra, pela legislação atual, Yeda vai sair do trono em breve e continuar recebendo estes sete mil até morrer sem precisar fazer mais nada. Esse esquema de pensão vitalícia para ex-governadores é coisa de primeiro mundo, um luxo nauseabundo.
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E eis que perdi mais um show em Porto Alegre: Echo & The Bunnymen no Opinião. E isso que o preço não tava dos piores. Já me acostumei, é uma tradição na minha história. A primeira vez que o B.B.King veio pra cá, eu não fui e pensei porra, esse nunca mais, perdi. Mas alguns anos depois, ele voltava pra mais uma apresentação em Porto Alegre. E é óbvio que eu também não fui…
Terça-feira, Julho 01, 2008
Capitalismo carcerário
Tenho uma solução utópica e estapafúrdia para a eterna crise dos presídios do País. Certo que outro imbecil já veio com essa sugestão absurda (e por isso bem plausível), mas vá lá. Existem toneladas de empresas multinacionais que invadem países de terceiro mundo (ok, corretos, emergentes) atrás de mão-de-obra barata, isso é fato. Então o negócio seria semiprivatizar os presídios (a serem construídos pelas multinacionais com suas fábricas lá dentro) em troca da mão-de-obra dos presos que vivem amontoados numa inércia que não deixa de ser onerosa pros cofres públicos (ou melhor, onerosa pro bolso do povo). Construamos presídios Nike, Reebok etc. Imaginaram que maravilha? Já que falam tanto em parcerias público-privadas atualmente, taí uma fabulosa idéia. Tá bom, fabulosa é o adjetivo correto. É que não me canso de pensar besteira.
Quinta-feira, Junho 26, 2008
Modelo 74
Do breu de motores úmidos
Combustões agridoces
Vertem meus movimentos
Pseudocalculados
E arrancos brutos
Das engrenagens gosmentas de labirinto
Entre conexões tortas de excelência
Chegam gritos inteligentes de aviso
Arremessados por tubulações macias
Do suor de operários monstruosos perfeitos
Engendrou-se a montagem da soma de minhas peças
Recortes retalhados de protótipos decadentes e já caídos
Que me plantaram sementes robóticas
Não vejo na avenida oficinas onde reparar
Meus tantos sensíveis defeitos de fábrica
Máquina interrompida de proliferar.
Combustões agridoces
Vertem meus movimentos
Pseudocalculados
E arrancos brutos
Das engrenagens gosmentas de labirinto
Entre conexões tortas de excelência
Chegam gritos inteligentes de aviso
Arremessados por tubulações macias
Do suor de operários monstruosos perfeitos
Engendrou-se a montagem da soma de minhas peças
Recortes retalhados de protótipos decadentes e já caídos
Que me plantaram sementes robóticas
Não vejo na avenida oficinas onde reparar
Meus tantos sensíveis defeitos de fábrica
Máquina interrompida de proliferar.
Quinta-feira, Junho 19, 2008
Alguns fatos revistos
É fato que não gosto daqueles filmes musicais nos quais as personagens começam a dançar e cantar de um minuto pra outro. Mas a morte recente da atriz-dançarina Cyd Charisse me lembrou de um clássico do cinema que eu só vim a assistir decentemente há uns quatro anos: Cantando na chuva (Singin' in the Rain - 1952). Esse espetáculo filmado escancarou minha boca, as coreografias com o Gene Kelly e o animalzinho do Donald O’Connor são hard-core. Só vendo. Muito além da cena básica (e clássica demais) do Gene Kelly cantando e dançando na chuva. Os caras ensinam numa performance absurda o que é um ator completo e todo o seu esforço. Continuo não gostando de musicais, mas esse é um dos melhores filmes que eu já vi. Tá, vão dizer, é um clássico, cala essa boca. Calei...
É fato: prum cara como eu, educado na infância e adolescência pela escola Hollywood de cinema, pode ser um pouco complicado digerir um filme alemão, com pouca ação e diálogos, em preto e branco e com mais de duas horas de duração. E mesmo que a minha idade insista em me convencer que eu cresci, sou adulto e já gostei até de cinema iraniano, ainda acho brabo acreditar na minha maturidade. Mas aí veio o Saldanha e me proporcionou um verdadeiro Festival Wim Wenders me emprestando uns DVDs do cara. Já tinha visto alguns outros filmes dele e já tinha gostado de alguns (O céu de Lisboa; Paris, Texas; Asas do desejo, O fim da violência; Estrela Solitária etc). Mas assistir numa semana quatro filmes, feito num Ciclo Wenders, nunca. E são às vezes longos, outras vezes parados e monótonos e também perturbadores. E não é mais cinema alemão, é multinacional. Não foi passeio no parquinho, mas o grande poder de narrativa e profundidade subentendida e fotografia e entrelinha e... que eu enxerguei ali foi sem precedentes. (desculpem comentar os quatro juntos, e superficialmente, como estivessem numa sacola). Listo aí embaixo pra quem quiser embarcar, mas não aceito reclamações. Se não me engano foi o Jabor que saiu com essa frase genial e justa: “Wim Wenders e aprendendo”.
1974 - Movimento em falso (Falsche bewegung)
1976 - No decurso do tempo (Im lauf der zeit)
1980 - Um filme para Nick (Nick's movie - Ligthning over water)
1982 - O estado das coisas (Der stand der dinge)
Sim, é fato: não costumo assistir a filmes mudos. Sou um trivial produtinho do meu tempo. Mas, comentando outro clássico, acendo um fósforo no incêndio. Vi faz uns bimestres o filme “Aurora” (Sunrise: A Song of Two Humans -1927), do diretor alemão F.W. Murnau. Ah, é perfeito, demais, cavalo, sobrenatural, simples e espantoso. Posso ver Aurora quantas vezes for, fui enfeitiçado. Bate qualquer tecnicolor com roteiro superelaborado e diálogos extraordinários e atores completos e. Bah!, eu muito dramático, pateticamente me ajoelho.
É fato: nunca tinha visto nenhum filme do Claude Lelouch. Até que, mais uma vez, o Saldanha (valeu) me emprestou “Um homem, uma mulher” (Un homme et une femme - 1966), e Crimes de autor (Roman de gare - 2007). O primeiro eu gostei mas deixa pra lá. Queria só dizer do segundo que tem um enredo muito bem tramado e é entretenimento de primeira. E a música Le cerisiers sont blancs, do Gilbert Bécaud, que eu não conhecia e curti toca lá. Vale ver. Depois disso vi “A coragem de amar” (Courage d'aimer, Le - 2005), gostei também, mas com algumas restrições que não vou repartir porque enchi o saco de escrever. É fato: cinema é pra ser visto. Nem que seja pra avacalhar depois.
É fato: prum cara como eu, educado na infância e adolescência pela escola Hollywood de cinema, pode ser um pouco complicado digerir um filme alemão, com pouca ação e diálogos, em preto e branco e com mais de duas horas de duração. E mesmo que a minha idade insista em me convencer que eu cresci, sou adulto e já gostei até de cinema iraniano, ainda acho brabo acreditar na minha maturidade. Mas aí veio o Saldanha e me proporcionou um verdadeiro Festival Wim Wenders me emprestando uns DVDs do cara. Já tinha visto alguns outros filmes dele e já tinha gostado de alguns (O céu de Lisboa; Paris, Texas; Asas do desejo, O fim da violência; Estrela Solitária etc). Mas assistir numa semana quatro filmes, feito num Ciclo Wenders, nunca. E são às vezes longos, outras vezes parados e monótonos e também perturbadores. E não é mais cinema alemão, é multinacional. Não foi passeio no parquinho, mas o grande poder de narrativa e profundidade subentendida e fotografia e entrelinha e... que eu enxerguei ali foi sem precedentes. (desculpem comentar os quatro juntos, e superficialmente, como estivessem numa sacola). Listo aí embaixo pra quem quiser embarcar, mas não aceito reclamações. Se não me engano foi o Jabor que saiu com essa frase genial e justa: “Wim Wenders e aprendendo”.
1974 - Movimento em falso (Falsche bewegung)
1976 - No decurso do tempo (Im lauf der zeit)
1980 - Um filme para Nick (Nick's movie - Ligthning over water)
1982 - O estado das coisas (Der stand der dinge)
Sim, é fato: não costumo assistir a filmes mudos. Sou um trivial produtinho do meu tempo. Mas, comentando outro clássico, acendo um fósforo no incêndio. Vi faz uns bimestres o filme “Aurora” (Sunrise: A Song of Two Humans -1927), do diretor alemão F.W. Murnau. Ah, é perfeito, demais, cavalo, sobrenatural, simples e espantoso. Posso ver Aurora quantas vezes for, fui enfeitiçado. Bate qualquer tecnicolor com roteiro superelaborado e diálogos extraordinários e atores completos e. Bah!, eu muito dramático, pateticamente me ajoelho.
É fato: nunca tinha visto nenhum filme do Claude Lelouch. Até que, mais uma vez, o Saldanha (valeu) me emprestou “Um homem, uma mulher” (Un homme et une femme - 1966), e Crimes de autor (Roman de gare - 2007). O primeiro eu gostei mas deixa pra lá. Queria só dizer do segundo que tem um enredo muito bem tramado e é entretenimento de primeira. E a música Le cerisiers sont blancs, do Gilbert Bécaud, que eu não conhecia e curti toca lá. Vale ver. Depois disso vi “A coragem de amar” (Courage d'aimer, Le - 2005), gostei também, mas com algumas restrições que não vou repartir porque enchi o saco de escrever. É fato: cinema é pra ser visto. Nem que seja pra avacalhar depois.
Terça-feira, Junho 10, 2008
Sinopse para Lulu
É, Lulu, já montei barraca no meio do turbilhão. Nem nascida tu era. Desde o início, quando o meu ex-compadre filmou aquele arranjo nosso e vazou pra imprensa meus aliados me abandonaram publicamente. Continuavam me apoiando nas internas, diziam, mas isso não me valia nada. Tapinha nas costas e merda, fico com a merda. Tive ajuda forte de alguns, reconheço. Alguns que só conhecia de vista ou reputação. Vieram, ofertas na manga, peneirei e espantei o joio. Mas os outros, a maioria caiu chutando minha jugular. E aí o teatro ficou insustentável. Fui obrigado a divulgar os esquemas do rodízio, uma cortininha de fumaça desesperada pra largarem meu saco. Nem pensei muito, agi quase de improviso, quase. Todo mundo sabia de tudo, até na imprensa, mas tudo na moita como fosse uma trepadinha fora do casamento. Mas bastou eu abrir a garganta e pasmaram como se eu tivesse cuspido um Argos na mesa do breakfast. Omissão também dá dinheiro, Lulu, e muito. Mas tem que distribuir, se não, é como foi com o narigudo, botam na forca rapidinho. E não tem apagar irmão que sabe tudo não. Te fecham e aí é alguns bons tempos de coca e havana até poder voltar. E a máquina vicia, não é só dólar como pruns perfumados aí. Tem mais, Lulu, é adrenalina, endorfina e outros lances aí. Mas quando abri a boca mudou tudo, me pressionaram mais, foi foda, me olhavam funéreos, ouvi umas bizarrices no telefone, nem te falo, andava com a mão pousada no caga-fogo, carregava o pretinho pra tudo que é lado. Fiquei paranóico. Mas me largaram, bicho, o processo rolou, me cortaram umas veias, mas voltei, nem demorou tanto quanto eu esperava. Minha oratória é forte, meu santo idem. Agora, me olham com respeito de novo, Lulu. Tá, meu assessor tentou me foder com aqueles papéis lá, mas o chefe me lançou a bóia, saí resguardado demais até. Pinto novo não bota ovo de ouro. Precisa anos de galinhagem. O Juta, esse meu assessor caiu lindo de mão no bolso, tá no baixo, marginal. Quase dá pena, quase. E, olha, dois que tropeçaram comigo já voltaram também. Tem que ter osso duro e tutano maleável, Lulu. Agora o rodízio modernizou, tá requintado, muitos até vêm me agradecer, dizem que fiz um bem, que organizei bastante a arena. Claro, meus contrários ainda tentam enfraquecer minhas bases. Divulgam esses factóides aí nos seus veículos de estimação. Tudo invencionice fraca, não dá em nada. Não remexem dados autênticos porque tão lambuzados também. E não posso culpar ninguém, claro, faço o mesmo com eles. Tamos quites e ninguém fala muito disso nos bastidores, é parte do espetáculo, embaralha cartas, diverte... Tá bom, tá bem. Deixa eu tomar o remédio e te levo lá embaixo pra mijar.
Quinta-feira, Maio 29, 2008
Uns goles sóbrios
O calor dominou minha cara e a garganta ardia do pedaço de salsicha recém-mastigado. Bebi o suco de uva do copo num gole e fiquei rolando dois cubos de gelo na boca. Os outros gritavam ao redor, eu não prestava atenção. Olhava além da janela o Corsa branco que fazia a curva na esquina e sumia indo embora pela avenida, lá, atrás daqueles prédios caixotes verdes e suas janelas abertas ou fechadas ou semi-ambos. Mordi o que restava do gelo e engoli os cacos. Recusei outro pedaço da salsicha, esbarrei em alguém e fui até o armário das garrafas. Licores, uísque, vodca, uísque, capturei a garrafa gordinha de tequila e retirei o sombreiro pequeno de palha pendurado no gargalo. Entre pratarias e cristais, garimpei um copinho de argila magra. Vão me fazer botar as doses na roda, pensei, mas não. Bebiam cerveja, fazia trinta e nove graus, suavam entretidos em conversa-televisão-música-risos-carne-..., ou talvez me evitassem num fingimento — por piedade. Virei num gole apenas a primeira dose, depois fui bebendo uns goles sóbrios, intervalos curtos. Escutei um barulho de vidro quebrar na sacada. Corpos passaram, voltaram, vultos vindo-indo-vindo. Descansei a mão na perna e senti o volume no bolso da bermuda: a carteira de couro, os documentos, o dinheiro, quase tudo. Descolei os lábios e lembrei do tanque vazio do Corsa branco. Sorri pasmado feito idiota afogado num microscópico triunfo. Servi mais, bebi, outra vez bebi, servi e avante. (...) Acordei no escuro, nu, ao lado um corpo quente roncava grudado no meu. Colchão mole demais e ligeira dor na cabeça. Por um segundo quis ligar o abajur, reconhecer o corpo, levantar, ir ao banheiro, beber água, procurar um remédio, vestir as roupas, sair dali, voltar pra casa. Mas outro segundo veio e despenquei a nuca no travesseiro, me obriguei a dormir.
Sábado, Maio 17, 2008
A foggy day (in Inner town)
Dia desses, manhã fria tarde quente, noite certa pra escutar Ella & Louis (presente da irmã Virgínia), eu quase podia chorar ou arrancar a peruca brown-power (tou cultivando as melenas, crescem muito pra cima muito antes de cair). Não restava meio pingo de cinismo na veia, era só fossa deprê romântica sonhadora por tudo que é e não é e já foi e não vai ser, por nada e Let’s call the whole thing off. Eu chafurdava no desequilíbrio entre a minha improdutividade inerte e covarde e o super-homem teórico que mora lá dentro, nas minhas internas, borbulhando. Pensei nas misérias várias do humano e em toda a gente interessante e chata que não vai nascer porque alguns de nós (e governos e tribos) vão aprender com os erros do passado histórico e Love is here to stay. E pensei no descontrole atabalhoado das natalidades. E pensei no dinheiro, no trabalho tripaliante, fome, tédio, doença, no azar e na sorte e Stars fell on Alabama. Pensei no meu desconforto genuíno diante tudo isso e no meu hedonismo um pouco autoprovocado e na carência de prazer daquele instante. E me esforcei pra lembrar daquele dia onze nublado no Morro das Pedras – They can’t take that away from me. E, olhando pruma foto no mural da parede, lembrei do Olívio candidato ao governo gaúcho dançando o Copérnico no palco do Theatro São Pedro e sendo aclamado e do meu sonho verdadeiro em eleger o cara, e dos quinze anos do sonho de entronizar o Lula. E aí lembrei da realidade atual das esmolas demagógicas e o resto. E pensei no bem que faz o mal e no mau que faz o bom, no menos pior de ruim e Dream a little dream of me. Pensei na minha garimpagem patética por solidão e na minha carência irremediável, no meu socialismo anti-social e na minha anarquia gentil e revolta murmurante. Lembrei duma conversa com a Jana e a Maninha: eu no meu egocentrismo estupendo falando da mania que tenho de me autodestruir, de corroer minha reputação, de falar mal de mim mesmo aproveitando pra falar de mim. Ridículo! (eu não disse?). E lembrei que nunca fiz terapia, e quase nunca quis, desculpem camaradas. E acabou o disco e fui barulhar umas pop songs no violão e me senti melhor, mas arranhei a garganta bebi um copo de tang limão e fui sugar um filtro amarelo aceso. Nada demais...
Sexta-feira, Maio 09, 2008
Erros de continuidade
Mulher de vestido azul caminha por entre as mesas e acende um Gitanes sem filtro. Todas as mesas estão ocupadas mas não há gente em pé. Cabeludo sentado com amigos está hipnotizado pelo andar da Mulher de vestido azul. Dois passos e ela encosta a barriga no balcão. Quase queima os dedos no cigarro e apaga o toco no cinzeiro. Bartender (sem a clássica toalha úmida no ombro) ouve o pedido da Mulher de vestido azul. Ele pega a garrafa de Genebra, escondida atrás do balcão, serve um copo e entrega à Mulher de vestido lilás. Ela deixa cair moedas na mão do Bartender que está secando o suor da testa com a toalha úmida pousada sobre o ombro esquerdo. Bartender guarda as moedas no caixa e a toalha úmida aparece no seu ombro direito. Sua testa está encharcada. Mulher de vestido azul vira o copo de Genebra num gole, largando-o sobre o balcão, mas o copo ainda contém a dose dupla servida há pouco. Outra vez, ela despeja o líquido garganta abaixo mas a dose dupla continua ali no copo agora largado sobre o balcão. Mulher de vestido lilás pode ficar a noite inteira ali bebendo mas parece hesitar. Ela então sai em direção à porta. Bartender de vestido azul recolhe o copo de Genebra vazio. Mulher com toalha úmida no ombro esquerdo faz um carinho breve na cabeça do Careca sentado com amigos e, antes de sair, acende um Gitanes com filtro.
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Duas perguntas soltas:
- Por que sempre chove tanto nos funerais hollywoodianos?
- Por que em filmes, telenovelas ou assemelhados sempre há folhas de alface nas lixeiras?
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Duas perguntas soltas:
- Por que sempre chove tanto nos funerais hollywoodianos?
- Por que em filmes, telenovelas ou assemelhados sempre há folhas de alface nas lixeiras?
Domingo, Abril 27, 2008
Mamãe viaja
Fazia nem seis meses que a gente namorava: Eu numa paixão de ferver gelo no ato, teu pai não sei. Ele tinha esse amigo, o Carioca, amigão mesmo, mas era um pirado. O Enrique então me convidou: Vamos acampar? Lá nos Aparados da Serra, lugar genial e parapá. Me diz se eu não ia aceitar? Na hora. Eu, ele, o Carioca e a namorada, Tânia ou coisa assim. Um ônibus até São Chico e outro até os Aparados. O segundo ônibus era de filme. Hollywood filmando na Colômbia. Lotado, a gente em pé, uma velha segurando um porquinho marrom e branco, galinha em jaula, uns lavradores fumando palheiro, vai inventando mais aí por ti, era real. Chegamos. O que teu pai não me falou foi dos oito quilômetros de chão na pernada até o Malacara, o Canyon lá que a gente ia acampar. Aí já olhei pra ele de lado, que paixão o quê. Saltou pra fora o meu comodismo. Mochila nas costas, fomos bebendo vinho em garrafão de plástico, o que salvou.
No lugar, eu fiquei louca. Que vista. Vou, em direção, me aproximo e vejo: um buraco enorme de rocha e verde aos meus pés, lá embaixo uma nuvem, uma nuvem! Perdoei tudo na hora. Teu pai chega e me agarra por trás, me dá um beijaço, nossa senhora. Montamos acampamento, duas barraquinhas mixa pra cada casal. E aí a gente senta num pedregulho à beira do abismo, bah! Quando a gente viu aquela nuvem se aproximando, vindo, subia aquela massa branca. E chega, começa a passar por nós a bruma fria, e eu olho pros três que também me olham e a gente não acredita. A sensação é chapante, te deixa louco de cara, que narcótico o quê. Aquilo ali é o que é. Nuvem viva te ultrapassando e tu enxerga ela se movimentar numa velocidade que. Um gelado gostoso, eu agarrada no colo do Enrique e os outros dois, ali, calados os quatro de boca aberta com a maravilha.
Bateu a noite, jantamos sardinha no pão e leite condensado e vinho. Conversando até altas. Fazia frio mas tranqüilo. Nem usamos as barracas, só no bivaque, no cheiro da madruga dentro do saco.
No outro dia, exploramos as trilhas e tudo. Nublou o céu. Almoçamos sardinha no pão, e água. Não deu meia hora, chuva. Chuva mesmo. Nos enfiamos pra dentro da barraca, quem disse? Entrava mais água do que lá fora. Fizemos uma tenda com um pedaço de lona que alguém tinha levado. Só pra enganar mesmo. Uma hora, tou eu sentada sozinha embaixo da tal lona, senta o Carioca do meu lado. Pega o potinho de benzina que a gente usava pro fogo e começa a cheirar aquilo. Abri o olho, grande. Ele diz: “Calma, relax”. Me oferece; claro, nem preciso te... recusei. Ele fica viajando um pouco sentado, quieto. Levanta. Chove menos agora. Ele vai, sumindo na bruma, em direção ao abismo. Eu, só olhando. Aí me dou conta. Levanto, corro, grito: Carioca, Carioca! Ele se vira. Falei pra ele, fiquei preocupada e tal, tu viajando de benzina indo direto pro abismo... Ele respondeu que não estava louco pra tanto.
Reunião de quadrilha. Menos chuva, mas ainda chuva, não dá. Vamos embora. Fomos. Oito quilômetros de volta, sorte que ainda tinha vinho. Chegamos à entrada do Parque. O plano era descer caminhando até Praia Grande pela estrada. Seguimos. Logo, passou um caminhão, nos deu carona. Nós e caixas de banana na carroceria, na chuva, no vento da descida, um frio desgraçado. E desce, desce, não chega, desce mais um tanto, continua descendo e desce até o plano, e roda, roda, roda até à entrada da cidade. Molhados e tremendo, tardezinha, mais um quilômetro. Chegamos ao centro. Uma lanchonete, um xis reforçado com ovo pra matar aquela fome. Ficamos sabendo de uma festa. Quem sabe? Andamos à procura de um local e encontramos à beira de um rio, não lembro o nome, acho que é Mampituba. Tinha um restaurante com um telhado e chão seco, era ali mesmo. Resgatamos roupa seca em sacolas de plástico e que maravilha. Roupa seca, sabe lá o que é isso. A melhor coisa que inventaram. Resolvemos dar uma deitada antes da tal festa. Que festa o quê. No outro dia, beleza, sol, um banho de rio, mais sardinhas no pão, ônibus, casa.
No lugar, eu fiquei louca. Que vista. Vou, em direção, me aproximo e vejo: um buraco enorme de rocha e verde aos meus pés, lá embaixo uma nuvem, uma nuvem! Perdoei tudo na hora. Teu pai chega e me agarra por trás, me dá um beijaço, nossa senhora. Montamos acampamento, duas barraquinhas mixa pra cada casal. E aí a gente senta num pedregulho à beira do abismo, bah! Quando a gente viu aquela nuvem se aproximando, vindo, subia aquela massa branca. E chega, começa a passar por nós a bruma fria, e eu olho pros três que também me olham e a gente não acredita. A sensação é chapante, te deixa louco de cara, que narcótico o quê. Aquilo ali é o que é. Nuvem viva te ultrapassando e tu enxerga ela se movimentar numa velocidade que. Um gelado gostoso, eu agarrada no colo do Enrique e os outros dois, ali, calados os quatro de boca aberta com a maravilha.
Bateu a noite, jantamos sardinha no pão e leite condensado e vinho. Conversando até altas. Fazia frio mas tranqüilo. Nem usamos as barracas, só no bivaque, no cheiro da madruga dentro do saco.
No outro dia, exploramos as trilhas e tudo. Nublou o céu. Almoçamos sardinha no pão, e água. Não deu meia hora, chuva. Chuva mesmo. Nos enfiamos pra dentro da barraca, quem disse? Entrava mais água do que lá fora. Fizemos uma tenda com um pedaço de lona que alguém tinha levado. Só pra enganar mesmo. Uma hora, tou eu sentada sozinha embaixo da tal lona, senta o Carioca do meu lado. Pega o potinho de benzina que a gente usava pro fogo e começa a cheirar aquilo. Abri o olho, grande. Ele diz: “Calma, relax”. Me oferece; claro, nem preciso te... recusei. Ele fica viajando um pouco sentado, quieto. Levanta. Chove menos agora. Ele vai, sumindo na bruma, em direção ao abismo. Eu, só olhando. Aí me dou conta. Levanto, corro, grito: Carioca, Carioca! Ele se vira. Falei pra ele, fiquei preocupada e tal, tu viajando de benzina indo direto pro abismo... Ele respondeu que não estava louco pra tanto.
Reunião de quadrilha. Menos chuva, mas ainda chuva, não dá. Vamos embora. Fomos. Oito quilômetros de volta, sorte que ainda tinha vinho. Chegamos à entrada do Parque. O plano era descer caminhando até Praia Grande pela estrada. Seguimos. Logo, passou um caminhão, nos deu carona. Nós e caixas de banana na carroceria, na chuva, no vento da descida, um frio desgraçado. E desce, desce, não chega, desce mais um tanto, continua descendo e desce até o plano, e roda, roda, roda até à entrada da cidade. Molhados e tremendo, tardezinha, mais um quilômetro. Chegamos ao centro. Uma lanchonete, um xis reforçado com ovo pra matar aquela fome. Ficamos sabendo de uma festa. Quem sabe? Andamos à procura de um local e encontramos à beira de um rio, não lembro o nome, acho que é Mampituba. Tinha um restaurante com um telhado e chão seco, era ali mesmo. Resgatamos roupa seca em sacolas de plástico e que maravilha. Roupa seca, sabe lá o que é isso. A melhor coisa que inventaram. Resolvemos dar uma deitada antes da tal festa. Que festa o quê. No outro dia, beleza, sol, um banho de rio, mais sardinhas no pão, ônibus, casa.
Sexta-feira, Abril 18, 2008
Cinema de ônibus
Eu escutava a Charlotte Gainsbourg cantando — que guarda só pra mim um sinal-de-beleza, íntimo, impresso perto do coração, ela esconde do resto do mundo essa marca natural na pele, essa pinta privada, e guarda pra mim —, quando o ônibus chegou. Embarquei, então, no Serraria rumo Centro. Onze e meia da manhã e eu ainda me sentia embriagado. Sentei esperando ouvir mais música nos fones de ouvido e ver o que eu chamo de cinema de ônibus. Eu sou fascinado por esse simples passatempo de coletivo: ver passando na janela as ruas, casas, gente, a paisagem da cidade, enfim. Acho que o resto do mundo inteiro que anda de ônibus tá nessa. Mas, eis que grudado na janela um adesivo gigante me impedia ao cinema trivial. O adesivo era propaganda de um sistema de transporte integrado da prefeitura de Porto Alegre, o TRI como eles chamam (só pra usar aquelas expressões prontas tri-legal, tri-bom, tri-afudezinho nas publicidades). Porra, o sistema pode ser uma beleza, mas propagandear desse jeito não dá. Sinceramente, eu já acho que atos da administração pública não deveriam ter publicidade, nem merecem. Mas essa é pra trucidar o caboclo. Privar um coitado bagaceiro da (talvez) única diversão que uma viagem de ônibus pela cidade pode proporcionar é sacanagem. Mais uns quinze minutos sentado, olhando praquele adesivo miserável, e a Charlotte foi embora com sua Beauty Mark, her favourite part. Agora eu ouvia a Elza Soares cantando que nela ninguém manda e um assento ficou vago no outro lado do coletivo. Troquei de lugar e a nova janela estava livre da publicidade nojenta e pude ver meu cinema de ônibus com Elza na trilha sonora. Vou ver se mando uma reclamação pra empresa de transportes da prefeitura. Será que adianta??? Então está, fui... tou indo pescar no Arroio Dilúvio.
Mas vou pra lá tri na pernada...
Mas vou pra lá tri na pernada...
Sexta-feira, Abril 11, 2008
Condenado
Separem minha cabeça do corpo
Guilhotina ou machadada mesmo
Eu matei Cristos e Gandhis e Kings e tantos mais
Eu quero câmara de gás
Uma injeção que invente o nada ou dor total
Eu desfigurei a Hiroshima e destruí Pearl Harbor
Antes que a morte me abrace
Devo aceitar torturas perfeitas
Minha ira é do IRA, é Palestina, Judaica, Nazista, Panteras Negras
Quilombo, Pele-vermelha
Mereço lobotomia e camisa-de-força
Minha culpa, minha, minha máxima culpa
Afoguem-me numa fogueira espessa e linda
Sou culpado de tudo que o mundo progride
Aos da esquerda, eu imploro
Arrebentem-me o crânio
Ao solitário gume da cimitarra
Pois me atrai Cuba e não engulo Fidel
Nem mesmo o Ernesto agüentou
Aos da direita, peço por favor
Façam exótico tapete da minha pele
Não preciso nem dizer um porquê
Aos da Central, eu exijo
Metralhem meu corpo inteiro
Que a máfia Kennedy esvaiu dos meus disparos
Mendigos, Bebês, Senadores e Artistas ou Transeuntes
Saíram da vida sofrendo pois trabalhei para isso
Convoquem cidades inteiras amanhã ali na esquina
Está marcado oficialmente meu linchamento solene
Eu, mini-burguês otário, marketeando todas as revoluções babacas
Bebendo cerveja a morder cheese-burgers
Meu ódio é Xiita, imperialista, capital-anarquista
O mundo inteiro girando parado
Entreguem-me sangrando aos tubarões piores
Carrego a culpa de tudo, de todos, por nada
Nem Karma ou Inferno me redime dos crimes
Condenem-me, urge-me clausura eterna
Colchão de brasas ou de seculares pregos
Ou então, perdão!
Mudei de idéia.
Guilhotina ou machadada mesmo
Eu matei Cristos e Gandhis e Kings e tantos mais
Eu quero câmara de gás
Uma injeção que invente o nada ou dor total
Eu desfigurei a Hiroshima e destruí Pearl Harbor
Antes que a morte me abrace
Devo aceitar torturas perfeitas
Minha ira é do IRA, é Palestina, Judaica, Nazista, Panteras Negras
Quilombo, Pele-vermelha
Mereço lobotomia e camisa-de-força
Minha culpa, minha, minha máxima culpa
Afoguem-me numa fogueira espessa e linda
Sou culpado de tudo que o mundo progride
Aos da esquerda, eu imploro
Arrebentem-me o crânio
Ao solitário gume da cimitarra
Pois me atrai Cuba e não engulo Fidel
Nem mesmo o Ernesto agüentou
Aos da direita, peço por favor
Façam exótico tapete da minha pele
Não preciso nem dizer um porquê
Aos da Central, eu exijo
Metralhem meu corpo inteiro
Que a máfia Kennedy esvaiu dos meus disparos
Mendigos, Bebês, Senadores e Artistas ou Transeuntes
Saíram da vida sofrendo pois trabalhei para isso
Convoquem cidades inteiras amanhã ali na esquina
Está marcado oficialmente meu linchamento solene
Eu, mini-burguês otário, marketeando todas as revoluções babacas
Bebendo cerveja a morder cheese-burgers
Meu ódio é Xiita, imperialista, capital-anarquista
O mundo inteiro girando parado
Entreguem-me sangrando aos tubarões piores
Carrego a culpa de tudo, de todos, por nada
Nem Karma ou Inferno me redime dos crimes
Condenem-me, urge-me clausura eterna
Colchão de brasas ou de seculares pregos
Ou então, perdão!
Mudei de idéia.
Sexta-feira, Abril 04, 2008
Trezentos e trinta e seis; um, dois, três, quatro...
Tenho medo, tanto medo, irmãzinha, me encolho fetal com frio nos ossos, entranhas refrigeradas, não espirro temendo que a alma me escape entre os perdigotos metralhados. aperto as pálpebras tentando cegar os olhos mas é inútil, eles enxergam monstros verdes em metamorfose contínua e são lindos deitados no fundo quase negro. lambo o suor dos braços, mordo indicadores de leve – tenho medo que os dentes estilhacem, despencando pela garganta. quero dormir, não consigo, lá no fundo interno imagino os sonhos tão reais que posso engrenar no sono e me provoco à insônia. tento desenhar no televisor da mente, com auxílios débeis da memória, luares mares brisas embriagadas na areia gelada, mas os rugidos automóveis atrás desta janela desmentem meu esforço. tenho medo, irmãzinha, tenho fraqueza por orgulho, exponho minhas feridas e tripas abertas provocando apenas risos ou aplausos ou nada. tranquei tantos sentimentos e perdi a chave e agora quase nem sinto mais, quase. cansei de recontar os trezentos e trinta e seis alvéolos da bola de golfe do tio Amaro e de tentar a hipnose com a chama da vela. cubra meu corpo, irmãzinha, tire a minha febre pela última vez. meus seios e carnes murcharam há décadas, num dia treze às onze e meia, duas horas depois, revirginei. o resto, todo o resto, seguiu escada abaixo. tenho medo, irmãzinha, de ainda ser.
Sexta-feira, Março 28, 2008
Esquerda e Direita, volver!
Desde o início da minha adolescência (que até hoje não logrei subjugar) sempre fui um cara de Esquerda. Por uma relativa identificação com os ideais canhotos e até mesmo por falta de opção. Diante de tudo que os Destros vinham fazendo com o País, eu não enxergava outra rota alternativa possível. Águas (de esgoto) rolaram e a Esquerda subiu aos palcos do Poderio Executivo. E viu-se o inevitável: a Utopia sempre é linda, na prática são todos filhotes de Maquiavel. A Esquerda, no Poder, é um desastre quase tão putrefato e nauseabundo quanto a Direita. Escrevo isso porque ontem, senti vergonha suprema do e pelo nosso presidente da República. Durante um discurso no Fórum Brasil-México, em Recife, Luiz Inácio teve um momento típico de bobo-da-corte. Singelamente ridículo, solenemente patético. Transcrevo, a seguir, parte da reportagem de Mylena Fiori, publicada pela Agência Brasil:
Lula revelou que ligou duas vezes para o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, para falar de sua preocupação (sobre a crise imobiliária norte-americana). "Liguei para ele para falar: 'Bush, é o seguinte meu filho, o Brasil está há 26 anos sem crescer. Agora que a gente está crescendo vocês vêm atrapalhar", relatou, provocando risos na platéia, composta por nomes como o megaempresário Ricardo Salinas, a terceira maior fortuna do México.
Talvez eu tenha exacerbado o cabotinismo das declarações presidenciais, mas minha vergonha ao ler tal frase foi verdadeira, não pude evitá-la. Pode ser um exemplo pequeno para justificar minha desilusão, mas.
Diante de tantas demonstrações diárias da pobreza abjeta das Esquerdas e Direitas, só me resta volver a mirada pra outros lados. Só o alienado político pode ser feliz...
Lula revelou que ligou duas vezes para o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, para falar de sua preocupação (sobre a crise imobiliária norte-americana). "Liguei para ele para falar: 'Bush, é o seguinte meu filho, o Brasil está há 26 anos sem crescer. Agora que a gente está crescendo vocês vêm atrapalhar", relatou, provocando risos na platéia, composta por nomes como o megaempresário Ricardo Salinas, a terceira maior fortuna do México.
Talvez eu tenha exacerbado o cabotinismo das declarações presidenciais, mas minha vergonha ao ler tal frase foi verdadeira, não pude evitá-la. Pode ser um exemplo pequeno para justificar minha desilusão, mas.
Diante de tantas demonstrações diárias da pobreza abjeta das Esquerdas e Direitas, só me resta volver a mirada pra outros lados. Só o alienado político pode ser feliz...
Sexta-feira, Março 14, 2008
Prelúdio para um rompimento
Sapatos de salto caem no asfalto, dois pretos, um vermelho. Um rapaz de terno riscado olha para cima. O xale de pele castanho-escuro atinge o chão. A mãe de cabelos louros carrega o filho de meio metro, ele tropeça num vestido vermelho. Uma garota magra recolhe os sapatos. Cai uma saia plissada, rosa, chutada por um senhor de bigodes grisalhos. O garçom do café em frente olha pela janela, vê a bolsa de couro preto despejada através da janela, quarto ou quinto andar.
Pepita agarra a caixa de charutos, recheada de bijuterias, e corre ao parapeito da janela. Pára. Olha pra baixo. Roupas, cores, gente, a ladeira asfaltada. Desiste; larga a caixa no sofá-cama e aperta os punhos. Vai à cozinha, serve um copo de cachaça, não bebe. Larga o copo na pia. Repara a falta de três azulejos na parede. Pega a garrafa de cachaça pelo gargalo e sai entornando.
Liga o rádio, música eletrônica, começa a pular. Chuta bolas imaginárias, cai de joelhos, chora em seco, apoiada na mesa de canto. A garrafa balança no parquê, despejando um fio de cachaça. Pepita tateia o sofá e encontra sua bolsa. Abre o fecho e pesca uma latinha de pastilhas. Aperta o meio da latinha redonda e a tampa se desprende. Com a unha rosada do minguinho tira porção do pó branco e estica uma linha no vidro da mesa de canto. Ao lado do abajur, uma nota de um Real enrolada. Aspira a linha do pó e levanta a cabeça, fungando. Encosta o queixo no peito, olha para os seios que tentam escapar do vestido, os mamilos salientes. Dá um tapa na latinha provocando a nuvem do pó, dá sua última aspirada. Levanta-se e corre à janela. A vertigem abraça seu corpo num zoom de meio segundo. As mãos tremelicando pousadas sobre o parapeito, cuja tinta branca está descascando. Não percebe, mas não há mais roupas nem sapatos na rua. Gente desce ou sobe a ladeira. Mira o chão. A vontade não é legítima, o asfalto provoca mais repulsa que atração. Os punhos cerrados, joga o corpo sobre o sofá. Procura cigarros na bolsa, acende um com o isqueiro bic vermelho. Seis tragadas fundas e joga a ponta no canto vazio da sala. Seu olhar vai atravessando o tubo da televisão, as paredes, os prédios vizinhos, não pára. Queria chorar, nada.
Pepita ouve vozes no corredor. Levanta e vai à cozinha. Abre a gaveta do armário debaixo da pia. Tirilim, desliza a mão sobre os talheres, agarra o cabo azul-claro da faca de pão. Esconde os cabelos atrás das orelhas e sai, passos mudos. Parada frente à porta, Pepita aperta o cabo da faca. Reconhece as vozes abafadas. Pode ouvir o que dizem, mas não escuta nada. O barulho da chave destranca a fechadura. Pepita expulsa o ar pela boca. A porta é aberta.
Pepita agarra a caixa de charutos, recheada de bijuterias, e corre ao parapeito da janela. Pára. Olha pra baixo. Roupas, cores, gente, a ladeira asfaltada. Desiste; larga a caixa no sofá-cama e aperta os punhos. Vai à cozinha, serve um copo de cachaça, não bebe. Larga o copo na pia. Repara a falta de três azulejos na parede. Pega a garrafa de cachaça pelo gargalo e sai entornando.
Liga o rádio, música eletrônica, começa a pular. Chuta bolas imaginárias, cai de joelhos, chora em seco, apoiada na mesa de canto. A garrafa balança no parquê, despejando um fio de cachaça. Pepita tateia o sofá e encontra sua bolsa. Abre o fecho e pesca uma latinha de pastilhas. Aperta o meio da latinha redonda e a tampa se desprende. Com a unha rosada do minguinho tira porção do pó branco e estica uma linha no vidro da mesa de canto. Ao lado do abajur, uma nota de um Real enrolada. Aspira a linha do pó e levanta a cabeça, fungando. Encosta o queixo no peito, olha para os seios que tentam escapar do vestido, os mamilos salientes. Dá um tapa na latinha provocando a nuvem do pó, dá sua última aspirada. Levanta-se e corre à janela. A vertigem abraça seu corpo num zoom de meio segundo. As mãos tremelicando pousadas sobre o parapeito, cuja tinta branca está descascando. Não percebe, mas não há mais roupas nem sapatos na rua. Gente desce ou sobe a ladeira. Mira o chão. A vontade não é legítima, o asfalto provoca mais repulsa que atração. Os punhos cerrados, joga o corpo sobre o sofá. Procura cigarros na bolsa, acende um com o isqueiro bic vermelho. Seis tragadas fundas e joga a ponta no canto vazio da sala. Seu olhar vai atravessando o tubo da televisão, as paredes, os prédios vizinhos, não pára. Queria chorar, nada.
Pepita ouve vozes no corredor. Levanta e vai à cozinha. Abre a gaveta do armário debaixo da pia. Tirilim, desliza a mão sobre os talheres, agarra o cabo azul-claro da faca de pão. Esconde os cabelos atrás das orelhas e sai, passos mudos. Parada frente à porta, Pepita aperta o cabo da faca. Reconhece as vozes abafadas. Pode ouvir o que dizem, mas não escuta nada. O barulho da chave destranca a fechadura. Pepita expulsa o ar pela boca. A porta é aberta.
Terça-feira, Fevereiro 19, 2008
um faroeste sobre o terceiro mundo

sem vergonha, confesso ser um dos últimos brasileiros a não ter visto, ainda, o Tropa de Elite, de José Padilha. não que eu tivesse, na época da febre dos seus DVDs piratas, melindres antipirataria. se até a presidência assiste a filmes nacionais corsários, movimentando a informalidade da economia. se no distrito federal existe a maior feira mundial de importados paraguaios e produtos piratas. não sou eu, um reles qualquer, que vai querer ser acusado de falta de patriotismo. é que não aconteceu, simples, não vi, acabei nem indo ao cinema para conferir. talvez por causa dessa superexposição ivete-sangaliana do filme e seus comentários, citações e piadinhas generalizadas que, confesso, me incomodavam um pouco (ou muito). mas não é sobre isso que eu sentei aqui pra escrever. o que é? é o retrato urbano, marginal e (argh!) trash da boca do lixo? é o grito mosaico-metralhadora parodístico colhido e arrancado das profundezas e superfícies da excremência plebéia? não, mas pode ser. na verdade, é somente um dos melhores filmes brasileiros de todas as eras: O Bandido da Luz Vermelha (1968, 92 min), de Rogério Sganzerla. exagero, e com razão. superlativos e hipérboles me servem. não venho aqui fazer a arqueologia de suas referências ou possíveis influências, esqueça Godard, Welles, o cinema novo e afins e suas novas vagas. nem vou esmiuçar análises fundas. o filme de cinema de Sganzerla destrói e subverte as linguagens para tramar uma narrativa original, punk-pop-kitsch e ainda atual. e vai muito além (e melhor) de seus prováveis precursores. é uma colagem caótica e precisa, livremente baseada na história real de João Acácio Pereira da Costa (na foto acima, fichado na polícia), vulgo Bandido da Luz Vermelha em referência ao norte-americano Caryl Chessman, que praticava seus crimes sob os raios de uma lanterna vermelha. voltando ao filme: a narração dos locutores sensacionalistas é bárbara. Paulo Villaça é sem-comentários. a montagem é boa, muito boa mesmo. e os enquadramentos... e et ceteras por aí afora. a estética do lixo de Sganzerla é uma chuva assombrosa e demolidora. tenho a certeza violenta de que tudo que escrevi foi um mero chuvisco no dilúvio diante de tudo que já escreveram sobre o filme. azar, o impulso me venceu. ‘tou babando pra ver o DVD que lançaram, com os extras que são tão supérfluos pra quem não é fanático. tudo bem, chega. e peço pra sair, berrando: “QUEM ‘TIVER DE SAPATO NÃO SOBRA!!!”
clique AQUI e saiba mais sobre a história do João Acácio, o Luz. o link leva pro site do programa Linha Direta, da Globo, de onde surrupiei a foto mug shot do homem.
Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008
Lami farewell
Recebemos ontem informações não-confirmadas de uma fonte protegida pelo código de ética de EscárniOficina. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Há livros da Editora Rarefeita sobre o assunto, filmes off-hollywod e filmes off-bollywood, reportagens em jornais mainstream da ilha de Baré-Cola e talvez algum CD com o Cid Moreira narrando a história. Ouvimos numa roda etílica-festiva. Maminhas, vazios e picanhas assavam sobre carvão ardente. Salsichões, pães e também dois espetos de coração de galinha (um trivial genocídio galináceo).
A bebida começou a fazer efeito e nosso informante foi despejando tudo com a desenvoltura de um Fidel em seus discursos: Aguilar, nosso amigo guatemalteco, partira anteontem numa jornada espiritual para o interior de uma garrafa de rum. Sentado na areia da praia do Lami, olhava o céu estrelado, a garrafa pela metade, quando ouviu aquela voz feminina, enroucada e melosa, cantando O telefone chora a uns quinhentos metros dali. A menina de pele morena e cachos dourados que pousavam no ombro cantava alimentando a fogueira de gravetos. Aguilar aproximou-se, olharam-se. Cambiaram magras palavras. Ela disse o nome: Ritamaura. Iluminados pelo fogo, miraram olhos recíprocos por um quarto de hora ou mais em silêncio. Entrelaçaram as mãos num prefácio curto para o beijo demorado de vinte e nove cancelamentos adiados. E amaram-se ao zelo indiferente da lua minguante. Dormiram sonhos perdidos até o raiar da manhã de quarta-feira. Aguilar despertou num susto, abraçado por terríveis presságios em relação a seu avô e irmãos que ainda moravam na Guatemala. Rogou que Ritamaura esperasse o seu inevitável retorno, pois no momento precisava ir-se. Beijou a carne grossa dos lábios de Ritamaura e correu até mergulhar na água, nadou até a Ponta Grossa e pegou um ônibus para o Centro. Foi pedir um dinheiro emprestado a outro amigo nosso, dono de uma casa noturna badalada por um público de classe média alta e adjacências. Embarcou no primeiro avião disponível. Abatido por deixar Ritamaura sozinha, afogada em olhares vesgos para as ondinhas encrespadas da água castanha na beira do Lami.
PS: Nosso informante é barrigudo, ostenta um bigode grosso e grisalho, ouve vozes estranhas e sua branda esquizofrenia desabrocha violenta ao tempero do álcool. Mas ele é muito boa-praça. (E Belafonte segue cantando através das caixas de som: Sad to say I’m on my way / Won’t be back for many a day / My heart is down / My head is turning around...)
A bebida começou a fazer efeito e nosso informante foi despejando tudo com a desenvoltura de um Fidel em seus discursos: Aguilar, nosso amigo guatemalteco, partira anteontem numa jornada espiritual para o interior de uma garrafa de rum. Sentado na areia da praia do Lami, olhava o céu estrelado, a garrafa pela metade, quando ouviu aquela voz feminina, enroucada e melosa, cantando O telefone chora a uns quinhentos metros dali. A menina de pele morena e cachos dourados que pousavam no ombro cantava alimentando a fogueira de gravetos. Aguilar aproximou-se, olharam-se. Cambiaram magras palavras. Ela disse o nome: Ritamaura. Iluminados pelo fogo, miraram olhos recíprocos por um quarto de hora ou mais em silêncio. Entrelaçaram as mãos num prefácio curto para o beijo demorado de vinte e nove cancelamentos adiados. E amaram-se ao zelo indiferente da lua minguante. Dormiram sonhos perdidos até o raiar da manhã de quarta-feira. Aguilar despertou num susto, abraçado por terríveis presságios em relação a seu avô e irmãos que ainda moravam na Guatemala. Rogou que Ritamaura esperasse o seu inevitável retorno, pois no momento precisava ir-se. Beijou a carne grossa dos lábios de Ritamaura e correu até mergulhar na água, nadou até a Ponta Grossa e pegou um ônibus para o Centro. Foi pedir um dinheiro emprestado a outro amigo nosso, dono de uma casa noturna badalada por um público de classe média alta e adjacências. Embarcou no primeiro avião disponível. Abatido por deixar Ritamaura sozinha, afogada em olhares vesgos para as ondinhas encrespadas da água castanha na beira do Lami.
PS: Nosso informante é barrigudo, ostenta um bigode grosso e grisalho, ouve vozes estranhas e sua branda esquizofrenia desabrocha violenta ao tempero do álcool. Mas ele é muito boa-praça. (E Belafonte segue cantando através das caixas de som: Sad to say I’m on my way / Won’t be back for many a day / My heart is down / My head is turning around...)
Terça-feira, Janeiro 29, 2008
Cotidiano choque vespertino
Sentei-me na velha tábua do balanço e quase caí. Ajeitei o corpo. Fora dois velhos jogando damas e os guris do futebol, a praça estava vazia. Tinha de segurar forte as correntes enferrujadas para não tremer. O suor das mãos misturando-se com a ferrugem renderam-me asco. Limpei as mãos na desbotada calça jeans. Percebi minhas sapatilhas enfiadas na poça de lama. Quando era guria me balançava batendo os pés na lama e chegava em casa pra ouvir outro sermão da mãe; nada demais, curtia, quantas vezes... tanto tempo... Um dos balanços estava com a tábua solta num dos lados. Quem consertaria aquilo?
Ouvi um dos velhos resmungando alto, as damas perdidas. As árvores paradas não tinham folhas para gingar se houvesse vento. O puta-que-pariu! e o não-foi! soltos no ar. Os boleiros debatiam por suposta falta na entrada da grande área. Não tinha coragem de levantar e fugir dali. Daquele distante espelho de solidão nublada. Aquela gangorra parada e vazia, inútil, as tintas descascadas em cores de filme preto-e-branco. E ali, onde o capim malcuidado acabava, era só areia marrom. Retângulos tortos e pisoteados da amarelinha que ninguém jogava naquela hora do dia já fatigado.
Queria balançar alto, girar a gangorra com força, invadir o futebol, embaralhar as peças do jogo de damas. Pular sapata imaginando as casas e números por detrás das pegadas infantes. Lançar-me ao abismo gelado no escorregador azul escuro. Mas tudo era paralisia, repressão do impulso, medo e desespero. Tudo era lembrança do cano de pistola apontado para a cabeça a duas quadras dali.
Ouvi um dos velhos resmungando alto, as damas perdidas. As árvores paradas não tinham folhas para gingar se houvesse vento. O puta-que-pariu! e o não-foi! soltos no ar. Os boleiros debatiam por suposta falta na entrada da grande área. Não tinha coragem de levantar e fugir dali. Daquele distante espelho de solidão nublada. Aquela gangorra parada e vazia, inútil, as tintas descascadas em cores de filme preto-e-branco. E ali, onde o capim malcuidado acabava, era só areia marrom. Retângulos tortos e pisoteados da amarelinha que ninguém jogava naquela hora do dia já fatigado.
Queria balançar alto, girar a gangorra com força, invadir o futebol, embaralhar as peças do jogo de damas. Pular sapata imaginando as casas e números por detrás das pegadas infantes. Lançar-me ao abismo gelado no escorregador azul escuro. Mas tudo era paralisia, repressão do impulso, medo e desespero. Tudo era lembrança do cano de pistola apontado para a cabeça a duas quadras dali.
Sexta-feira, Janeiro 18, 2008
Nasce um anfitrião
Vigiem as portas. Cerrem as janelas. Sufoquem a chama das velas e tirem os sapatos. Que o trem de seus pensamentos pise no freio de emergência. Interrompam o rolar dos dados, escancarem os olhos. As vozes calaram no corredor e o que ouço é o chicotear de ondas na carne fria das pedras. O vento assobiando em mi menor a massagear o verde vaivém nos galhos. As sombras de mistério espreitando encostadas no musgo das paredes de fora. Por favor, joguem correntes grossas no esqueleto em movimento das engrenagens. Troquem mais uma vez todos os segredos dos cofres, alterem as senhas. Um exército de silêncio grosso e pegajoso marcha rumo a nossos corpos tensos. O medo avança imperecível nas avenidas e becos de minhas veias, numa trajetória circular de correnteza jorrando em peso adocicado. No breu sem fim da caverna craniana minha, late em ecos ricocheteantes a saudade de uma dança volátil entre morcegos e borboletas e bolhas de sabão e claves de sol desenhadas no ar. Os inimigos chegaram e batem na porta, como se fôssemos abrir, como se não pudessem derrubá-la num leve sopro. Evaporou a validade das pastilhas de cura e o suco de mescal acabou anteontem depois da chuva. Desisto. Podem entrar, finjam que a casa é sua...
Terça-feira, Janeiro 08, 2008
Suzanne Bloch, Eu e o Lavrador de Café
A linha do baixo de Here comes your man não me sai da mufa e esse calor dá uma preguiça desgraçada. Mesmo assim tou com um desejo grávido de beber café forte com açúcar mascavo e uma pitada de canela. E assim vou — apalpando a escuridão de um Dois Mil e Oito em germe pulsante, na tentativa de acordar, afogado em remela seca e anseios desordenados. Contas de mamãe viajante a pagar, uns livros pra ler e vai ver o que mais... Acabei de lavar uma louça básica e as telas furtadas do MASP em dezembro último foram, agora há pouco, recuperadas: Picasso e seu Retrato de Suzanne Bloch, e Portinari e O Lavrador de Café. Sorte do museu paulista que não tinha segurado as obras. E um dos meus grandes projetos egocêntricos para o ano corrente é Sair da Adolescência. Outro projeto é seguir escrevinhando neste Blog com fundo preto, este semanário superelástico — playground de um entediado. Cambiando a conversa, ontem revi O Jantar dos Malas (Le Dîner de Cons, 1998), uma comédia bem das leves dirigida pelo Francis Veber, o mesmo cabra que fez O Closet (Le Placard, 2001). Originalmente, uma peça teatral escrita pelo próprio Francis Veber, a história do Le dîner de cons foi encaixotada num filme muito engraçado. Pra quem ainda não viu, indico: assista. Pra quem já viu, juro que não te convido pra jantar. Então tá, vamusimbora que já tão pegando...
Quinta-feira, Dezembro 20, 2007
Conto de Fadas e dois Reis Soberbos
Não temos a vocação para rábula de Mefistófeles, mas ambos reinados de Cardoso 1º e seus 400 usurpadores e Silva Sênior e seus 300 picaretas promoveram boas ações para nossa aldeia. Cada um com suas características e origens próprias — camaleões contraditórios como todo bom ser humano. Economia controlada (sic) e um tanto estável, maior distribuição (sic) de renda entre as classes de baixa ou nenhuma renda, e a velha e substanciosa ajuda aos amigos de ambos que também são filhos de Deus e Brasileiros (tá, talvez nem todos). Outra melhoria básica: Não passaram trono e coroa para seus filhos príncipes, apenas garantiram, no mercado cinza e em verbas indiretas, que seus descendentes garantissem uma nobreza aristocrática com alta e justa renda. Atos fraternos naturais que foram relativamente noticiados e causaram escândalo apenas entre rebeldes alienados e insignificantes, os famosos Otários. E o melhor: fizeram tudo, e mais um muito, democraticamente recitando belíssimas demagogias reconfortantes.
E assim, os Três Porquinhos Poderes seguem abrindo bocas alheias de espanto maravilhado com seu espetáculo dramático de terror e humor negro...
Mas e as Fadas?, pergunta a marionete com cara de transeunte.
As Fadas atendem em horário comercial após pagamento inicial de dois mil e trezentos e quarenta e oito dólares, depósito não-identificado nº 0000000777799966666-8 no Banco Linda Lovelace. Tenha em mãos cópia autenticada de comprovante de renda acima de R$ 28 mil e quatrocentos.
E assim, os Três Porquinhos Poderes seguem abrindo bocas alheias de espanto maravilhado com seu espetáculo dramático de terror e humor negro...
Mas e as Fadas?, pergunta a marionete com cara de transeunte.
As Fadas atendem em horário comercial após pagamento inicial de dois mil e trezentos e quarenta e oito dólares, depósito não-identificado nº 0000000777799966666-8 no Banco Linda Lovelace. Tenha em mãos cópia autenticada de comprovante de renda acima de R$ 28 mil e quatrocentos.
Terça-feira, Dezembro 11, 2007
Opinião suspeita – The Darjeeling Limited

Muitos regurgitadores virtuais já escreveram (contra ou a favor ou ambos) sobre o último filme de Wes Anderson — Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited, 2007, 91min). Eu fui assistir ao filme a convite –esperto– de Maurício Saldanha, numa sessão de pré-estréia, à meia-noite, há mais de trinta luas atrás. O que tenho a dizer é: Gosto! Gostei! E bastante. Mas sou suspeito para que outros levem a sério minha opinião. Explico:
Tudo começou há muito tempo atrás — Era uma vez um rapaz idiota e desavisado, perdido numa vídeo-locadora de Porto Alegre. Bocejando, agarrou a fita VHS de Três é Demais (Rushmore, 1998, 93min) e decidiu levar para conferir, uma básica flechada nas trevas. Que surpresa teve o idiota: um dos filmes mais divertidos que vira nos últimos tempos, aliás, fazia anos não enxergava no horizonte comédia contemporânea que o agradasse. Chegou a contagiar-se pelos dois protagonistas (Max Jason Schwartzman Fischer e Herman Bill Murray Bloom) vivendo uma paixão sadia pela personagem Rosemary Cross, interpretada por Olivia Williams. E a trilha sonora ainda era repleta de canções que condescendiam ao seu paladar musical.
Bom... Dias e anos passaram e Eu (obviamente, o rapaz idiota) fui ver Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001, 110min). Aí, eu já estava subjugado pela satisfação de ver os filmes desse tal Wes Anderson. Este, dos Tenenbaums, para mim o melhor, a obra-mestra do cara. A cena em que o Gene Hackman (Ave!) diz para a Anjelica Huston (Ave!) que vai morrer é impagável. O Filme, assim como o Rushmore, foi escrito em parceria com Owen Wilson (um dos irmãos mandíbula).
Depois veio A Vida Aquática de Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, 2004, 119min) e uma leve degringolada na qualidade (nada demais, gostei também).
Eis por que sou suspeito para falar de Viagem a Darjeeling (roteirizado por Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman). Com três músicas do Kinks, boa trilha e a gostosa Where Do You Go To (My Lovely) de Peter Sarstedt, o filme tem como prólogo o curta-metragem Hotel Chevalier. Aquele com a nudez arrependida da Natalie Portman. Ah, a trilha tem também uma das melhores dos Rolling Stones — Play with fire. Que eu saiba, ao menos aqui em Porto Alegre de onde escrevo, o filme só está passando, em sessão solitária, no cinema do aeroporto. Mas vale (avisei que sou suspeito).
PostScriptum: Não comento o primeiro filme de Wes Anderson – Pura Adrenalina (Bottle Rocket,1994) porque não assisti. E tenho a leve impressão de que não se encaixa na característica assinatura visual que as outras películas do diretor projetam (chute brabo).
Tudo começou há muito tempo atrás — Era uma vez um rapaz idiota e desavisado, perdido numa vídeo-locadora de Porto Alegre. Bocejando, agarrou a fita VHS de Três é Demais (Rushmore, 1998, 93min) e decidiu levar para conferir, uma básica flechada nas trevas. Que surpresa teve o idiota: um dos filmes mais divertidos que vira nos últimos tempos, aliás, fazia anos não enxergava no horizonte comédia contemporânea que o agradasse. Chegou a contagiar-se pelos dois protagonistas (Max Jason Schwartzman Fischer e Herman Bill Murray Bloom) vivendo uma paixão sadia pela personagem Rosemary Cross, interpretada por Olivia Williams. E a trilha sonora ainda era repleta de canções que condescendiam ao seu paladar musical.
Bom... Dias e anos passaram e Eu (obviamente, o rapaz idiota) fui ver Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001, 110min). Aí, eu já estava subjugado pela satisfação de ver os filmes desse tal Wes Anderson. Este, dos Tenenbaums, para mim o melhor, a obra-mestra do cara. A cena em que o Gene Hackman (Ave!) diz para a Anjelica Huston (Ave!) que vai morrer é impagável. O Filme, assim como o Rushmore, foi escrito em parceria com Owen Wilson (um dos irmãos mandíbula).
Depois veio A Vida Aquática de Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, 2004, 119min) e uma leve degringolada na qualidade (nada demais, gostei também).
Eis por que sou suspeito para falar de Viagem a Darjeeling (roteirizado por Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman). Com três músicas do Kinks, boa trilha e a gostosa Where Do You Go To (My Lovely) de Peter Sarstedt, o filme tem como prólogo o curta-metragem Hotel Chevalier. Aquele com a nudez arrependida da Natalie Portman. Ah, a trilha tem também uma das melhores dos Rolling Stones — Play with fire. Que eu saiba, ao menos aqui em Porto Alegre de onde escrevo, o filme só está passando, em sessão solitária, no cinema do aeroporto. Mas vale (avisei que sou suspeito).
PostScriptum: Não comento o primeiro filme de Wes Anderson – Pura Adrenalina (Bottle Rocket,1994) porque não assisti. E tenho a leve impressão de que não se encaixa na característica assinatura visual que as outras películas do diretor projetam (chute brabo).
Domingo, Dezembro 02, 2007
Teoria matinal
Essa canalha capitalista de esquina me transborda de respostas pra tudo que eu não perguntei. Vão seguindo meus passos pesados rua abaixo com dentistas a tiracolo, que gritam loas a dentifrícios soberbos. Fujo por um beco-sem-saída e fico ali aprisionado, num fim-de-tarde cinza, entre paredes musguentas de prédios altos. Confuso, vejo a porta envidraçada e suja da Loja de Lumbirmant e entro. Peço ao jovem de barbas grisalhas por um furo de escape qualquer daquele beco sombrio. Ele me mostra o gravador onírico a dois centavos e apresenta uma breve aula sobre. Olho para ele sem escutar. Atravesso a cortina de plástico vermelho no fim da loja e estou no corredor da casa de minha avó, os pés descalços nas tábuas de pinho do chão. Uma dúzia de crianças desconhecidas aparece me enchendo de porradas doloridas. E castores do tamanho de são-bernardos adultos mordem minhas pernas e mastigam, por vezes cuspindo meus pêlos que obstinam-se a grudar em suas línguas. Entro na última porta do corredor e um bicho estranho de espécie indefinida esfrega o imenso nariz molhado e pegajoso na minha pele. A náusea me invade, prefiro o linchamento infantil e os castores, saio. A chuva cai forte e estou parado numa poça rasa, pego uma de minhas alpargatas pretas e a jogo para Dornelles, parado lá embaixo no fim da escada.
Acordo, as pernas suadas, entre as reminiscências desordenadas do sonho, e o rascunho da teoria despenca desenvolto em meus devaneios. Seleciono as informações mentais (um insight leviano do instinto) e tento organizá-las. A hipótese é de que as ações diárias de um indivíduo sejam orientadas pelos sonhos através do subconsciente, que interpreta e decifra as mensagens e idéias contidas nesses sonhos e comanda as atitudes individuais, governado por essas interpretações, independente da consciência. Ao contrário de serem produtos da experiência, os sonhos seriam a causa das escolhas e atitudes pessoais de cada um. Mesmo que as ações provenham, supostamente, de pensamentos e raciocínios lógicos e minuciosos. Mesmo que os sonhos estejam para sempre perdidos num calabouço frio e remoto do esquecimento.
O alarme soa, desligo num tapa, viro de lado e volto a dormir.
Acordo, as pernas suadas, entre as reminiscências desordenadas do sonho, e o rascunho da teoria despenca desenvolto em meus devaneios. Seleciono as informações mentais (um insight leviano do instinto) e tento organizá-las. A hipótese é de que as ações diárias de um indivíduo sejam orientadas pelos sonhos através do subconsciente, que interpreta e decifra as mensagens e idéias contidas nesses sonhos e comanda as atitudes individuais, governado por essas interpretações, independente da consciência. Ao contrário de serem produtos da experiência, os sonhos seriam a causa das escolhas e atitudes pessoais de cada um. Mesmo que as ações provenham, supostamente, de pensamentos e raciocínios lógicos e minuciosos. Mesmo que os sonhos estejam para sempre perdidos num calabouço frio e remoto do esquecimento.
O alarme soa, desligo num tapa, viro de lado e volto a dormir.
Quarta-feira, Novembro 21, 2007
Notas para personagem masculina de 23 anos
- Uma atmosfera de fracasso faz parte do seu estilo deliberado
- A paixão (prestes a encarnar) pela madrasta Zulmira de quarenta anos
- Trabalha numa das lojas do pai, vendendo artigos esportivos
- Tem aversão a festas – trauma remoto ignorado pelo consciente
- Faz a barba duas vezes no dia
- Acabou de comprar um caleidoscópio de lixo reciclado
- Anda com um chaveiro canivete que usa seguido em situações triviais
- Ostenta com orgulho e histórias uma cicatriz de facada invisível abaixo do peito
- Treina malabares com bolas verdes compradas na Marechal Floriano (prende o lençol do beliche alto na cintura das calças pra não ter que ficar juntando as bolas)
- A futura ex-namorada prepara viagem de ano e meio rumo a Périgueux
- Desfruta de memória elefântica que beira a demência
- Joga pôquer e sinuca na casa de um amigo todas as terças-feiras
- Não terminou o ensino médio
- Escuta Jazz instrumental e lê romances policiais com finais surpreendentes
- Sugestão prévia para o nome: Luciano de Albuquerque e Souza
A ser continuado...
- A paixão (prestes a encarnar) pela madrasta Zulmira de quarenta anos
- Trabalha numa das lojas do pai, vendendo artigos esportivos
- Tem aversão a festas – trauma remoto ignorado pelo consciente
- Faz a barba duas vezes no dia
- Acabou de comprar um caleidoscópio de lixo reciclado
- Anda com um chaveiro canivete que usa seguido em situações triviais
- Ostenta com orgulho e histórias uma cicatriz de facada invisível abaixo do peito
- Treina malabares com bolas verdes compradas na Marechal Floriano (prende o lençol do beliche alto na cintura das calças pra não ter que ficar juntando as bolas)
- A futura ex-namorada prepara viagem de ano e meio rumo a Périgueux
- Desfruta de memória elefântica que beira a demência
- Joga pôquer e sinuca na casa de um amigo todas as terças-feiras
- Não terminou o ensino médio
- Escuta Jazz instrumental e lê romances policiais com finais surpreendentes
- Sugestão prévia para o nome: Luciano de Albuquerque e Souza
A ser continuado...
Sexta-feira, Novembro 09, 2007
A fábula do Ratinho verde
A Joaninha chamou o Tatu-Bola que rolava por perto. Queria ajudar a Formiga a desgrudar-se de uma pedra lambuzada de melaço. O Tatu-Bola refletiu, prevendo seu casco preso pela gosma. O Ratinho verde fosforescente (caíra numa lata cheia de um líquido estranho e morno) apareceu. Olhando frenético para os lados, passou a lamber o melaço duro e pegajoso. Ao desgrudar a língua, escutou comentários alheios sobre a formiga e percebeu-a de lado, tentando desprender o corpo. O ratinho deu um safanão e a formiga caiu entre a terra escura e úmida, os membros tortos. Esfregou-se no marrom molhado e foi andando, coberta de terra, ao abrigo da grama recém cortada. Joaninha subiu no bater das asas e o Tatu-Bola rolou despreocupado pra longe dali. O Ratinho verde seguiu por uma vala próxima. Numa plataforma de chão batido, começou a correr num círculo do tamanho de um pneu. Escapou do círculo numa reta diagonal, bateu de cabeça num pedregulho e morreu. Meia hora depois, apareceu o menino Josué, doze anos. Descobriu o rato e enganchou pelo rabo com as mãos cheias de terra e saiu carregando a caça. Mostrou para Jujú e Mariazinha, mandaram-no caminhar. Abriu a porta de casa. O fogão a lenha, improvisado, exalava chamas. Pegou o espeto de madeira e cravou do rabo saindo pela cabeça do bicho verde. Cutucando as brasas com um pedaço de pau, ajeitou o corpo do rato espetado sobre o calor. A mãe de Josué chegou. Olhou para o filho e sorriu um segundo. Calada, desmanchou o sorriso. Num berro áspero, ordenou que fosse buscar mais lenha, já!
Quarta-feira, Outubro 31, 2007
Curtas e muito grossas
Copa do Mundo - Bem... O Brasil sediando uma Copa mundial de ludopédio, sei não... Exigirá um esforço de Sísifo para interpretar as entrelinhas herméticas e os dados aparentes e escamoteados para saber quem vai sair ganhando com essa história. O torcedor, pagando bem, poderá xingar a mãe do árbitro ao vivo no meio da balbúrdia de arquibancada. Fora isso, sabe lá o que o público (marginal inato para o que importa) vai ganhar com isso; tá, uma alegria de instante, talvez. Não é espírito suíno, não. Preocupação legítima de outro marginal alienado.
A fome bateu? comam troféus, feito na ditadura.
Fila do SUS também grita Gol.
Terceiro mandato - É horrendo e nauseabundo testemunhar a discussão pública sobre um terceiro mandato para o presidente Lula. Figuras de renome cuspindo suas opiniões sobre o assunto e (pasmem, camaradas) jornais e revistas respeitados mancheteando o ridículo tema. Como se fosse algo a se pensar. Exigimos silêncio ensurdecedor e correto sobre tal acinte. Sabemos que as opções na próxima eleição, sejam quais forem, serão apavorantes, sabemos que vão-se as moscas, ficam os merdéis. Mas, fora uma nova Era Glacial ou a esquizofrenia, só o que nos resta é a Alternância Ilusionista de Poder.
A fome bateu? comam troféus, feito na ditadura.
Fila do SUS também grita Gol.
Terceiro mandato - É horrendo e nauseabundo testemunhar a discussão pública sobre um terceiro mandato para o presidente Lula. Figuras de renome cuspindo suas opiniões sobre o assunto e (pasmem, camaradas) jornais e revistas respeitados mancheteando o ridículo tema. Como se fosse algo a se pensar. Exigimos silêncio ensurdecedor e correto sobre tal acinte. Sabemos que as opções na próxima eleição, sejam quais forem, serão apavorantes, sabemos que vão-se as moscas, ficam os merdéis. Mas, fora uma nova Era Glacial ou a esquizofrenia, só o que nos resta é a Alternância Ilusionista de Poder.
Quarta-feira, Outubro 24, 2007
Compram-se ilusões desmaquinadas
Tinha rios afluentes vermelhos no branco dos olhos
E veleiros pingos naufragando nas penínsulas de catarata
Tinha avisos de perigo por baixo das unhas negras
E um gosto de fruta nobre na esquálida mão do faminto
Tento aprisionar à inexistência
Todas as grades que invento
Que os ventos errantes
Carreguem meus anti-sentidos
Do profundo inconcebível
Limite que há em mim
Desejo esse olhar torto para cúmplice
Dos meus crimes ordinários
Veredas afora
E o contrário também ou me iludo
Busco as mesmas cores que pintam
Os dias doidos em que eu te vejo
Atiro meu grito onde acaba tudo
E aí rascunho um segundo infinito
Com a força nos dedos
E as saídas que invento
Desmaquinado
No sonho de ontem
Eu fugia de espelhos
Hoje – quase – quase lúcido
Rindo sozinho no chão suspenso
De um décimo quarto andar
Ainda pareço fugir
É pele indecisa
Sem guias, modelos
Ou mapas
Coisa séria ou nem tanto
Mergulha nos ares
De delirantes paisagens
Sem freios pro incerto
Fumando raras melodias
Onde talvez tudo Seja
Exista
ou Invente-se
Nos caros quilômetros
De vida encenada
Nos buracos de amor
Cavados no distúrbio dos dias
Onde nada o tudo que sonho.
E veleiros pingos naufragando nas penínsulas de catarata
Tinha avisos de perigo por baixo das unhas negras
E um gosto de fruta nobre na esquálida mão do faminto
Tento aprisionar à inexistência
Todas as grades que invento
Que os ventos errantes
Carreguem meus anti-sentidos
Do profundo inconcebível
Limite que há em mim
Desejo esse olhar torto para cúmplice
Dos meus crimes ordinários
Veredas afora
E o contrário também ou me iludo
Busco as mesmas cores que pintam
Os dias doidos em que eu te vejo
Atiro meu grito onde acaba tudo
E aí rascunho um segundo infinito
Com a força nos dedos
E as saídas que invento
Desmaquinado
No sonho de ontem
Eu fugia de espelhos
Hoje – quase – quase lúcido
Rindo sozinho no chão suspenso
De um décimo quarto andar
Ainda pareço fugir
É pele indecisa
Sem guias, modelos
Ou mapas
Coisa séria ou nem tanto
Mergulha nos ares
De delirantes paisagens
Sem freios pro incerto
Fumando raras melodias
Onde talvez tudo Seja
Exista
ou Invente-se
Nos caros quilômetros
De vida encenada
Nos buracos de amor
Cavados no distúrbio dos dias
Onde nada o tudo que sonho.
Sexta-feira, Outubro 12, 2007
A Tecnologia do Ovo
Ainda que não tenhamos a inteligência, engenhosidade e genial iniciativa de nosso colega, aqui homenageado, nenhum de nós consegue conceber a vida sem a existência suprema do ovo. Com o auxílio do tempo, que vulgariza tudo, parece não haver restado o mínimo resquício de lembrança em nossas mentes de épocas anteriores ao inigualável invento. Seu formato perfeito que podemos admirar nos desenhos do projeto, expostos na sala Fecundus do Museu de Criação, atesta a competência do nosso staff de demiurgos. Sem dúvida nenhuma se não tivéssemos, ainda, o existir de tal aparato, certamente, teríamos de inventá-lo. Porém, que árdua tarefa seria, de provável impossibilidade.
Com o saudável hábito de manifestar sua existência nos tipos oligolécito, heterolécito, telolécito ou centrolécito, tal zigoto carrega na casca: a gema e seus lipídios; a clara, coagulável por aquecimento; a membrana; a calaza; o gérmen e afins. Não me estendo mais, amigos; depois ouviremos detalhada e brilhante palestra sobre o ovo, proferida por seu inventor. O tema da apresentação será "A Tecnologia do Ovo e seus Predicados". Eu, na pele de CEO (chief executive officer) de nossa tradicional empresa, só posso homenagear a sutileza majestosa de nosso funcionário, com lágrimas torrentes nos olhos. Louvemos em regozijo total e absoluto esta invenção que fez nossas ações catapultarem em crescimento vertiginoso, estagnando em patamar seguro e lucrativo. E é com imodesto júbilo e deleite que chamo ao palco o engenheiro e designer K.B.N., o nosso mais novo Homem do Milênio Original.
Com o saudável hábito de manifestar sua existência nos tipos oligolécito, heterolécito, telolécito ou centrolécito, tal zigoto carrega na casca: a gema e seus lipídios; a clara, coagulável por aquecimento; a membrana; a calaza; o gérmen e afins. Não me estendo mais, amigos; depois ouviremos detalhada e brilhante palestra sobre o ovo, proferida por seu inventor. O tema da apresentação será "A Tecnologia do Ovo e seus Predicados". Eu, na pele de CEO (chief executive officer) de nossa tradicional empresa, só posso homenagear a sutileza majestosa de nosso funcionário, com lágrimas torrentes nos olhos. Louvemos em regozijo total e absoluto esta invenção que fez nossas ações catapultarem em crescimento vertiginoso, estagnando em patamar seguro e lucrativo. E é com imodesto júbilo e deleite que chamo ao palco o engenheiro e designer K.B.N., o nosso mais novo Homem do Milênio Original.
Os três quadros eletrônicos de aviso, que piscavam a palavra APLAUSOS em vermelho, não estavam funcionando. Tal fatalidade não impediu que o inventor do ovo fosse aplaudido de pé por um público de vinte mil empregados sorridentes.
Terça-feira, Outubro 02, 2007
Autoquestionário ludoterápico
– Como você se enxerga? – Como um corte aberto coagulando, ou no espelho.
– Onde você imagina que estará daqui a cinco anos? – Num trem, de Paris a Barcelona, com a massagista ruiva acabando com meu corpinho.
– Qual a maior personalidade do século XX? – Minha amiga Julinha.
– Uma situação que tira você do sério, qual seria? – Um chute no meu saco.
– Lembra de algum sonho da noite passada? – Eu recebia um buquê de flores mortas do secretário presidencial e uma galinha caolha bicou meu pé.
– Quando vale a pena mentir? – Quando me perguntam se recordo de algum sonho da noite passada.
– O que levaria para uma ilha deserta? – Um isqueiro com recarga infinita.
– Você julga imaginar o significado da existência? – Um deles me é revelado ao comer o espaguete à puttanesca do Armando.
– O que acontece numa segunda-feira ideal? – É declarado o Feriado Eterno, fico em casa comendo beijando, era tudo sonho, reinam paz, amor, sabedoria e dinheiro no banco entre os povos.
– Alguma palavra para os nossos dois leitores? – Parem de ler agora!
– Onde você imagina que estará daqui a cinco anos? – Num trem, de Paris a Barcelona, com a massagista ruiva acabando com meu corpinho.
– Qual a maior personalidade do século XX? – Minha amiga Julinha.
– Uma situação que tira você do sério, qual seria? – Um chute no meu saco.
– Lembra de algum sonho da noite passada? – Eu recebia um buquê de flores mortas do secretário presidencial e uma galinha caolha bicou meu pé.
– Quando vale a pena mentir? – Quando me perguntam se recordo de algum sonho da noite passada.
– O que levaria para uma ilha deserta? – Um isqueiro com recarga infinita.
– Você julga imaginar o significado da existência? – Um deles me é revelado ao comer o espaguete à puttanesca do Armando.
– O que acontece numa segunda-feira ideal? – É declarado o Feriado Eterno, fico em casa comendo beijando, era tudo sonho, reinam paz, amor, sabedoria e dinheiro no banco entre os povos.
– Alguma palavra para os nossos dois leitores? – Parem de ler agora!
Terça-feira, Setembro 18, 2007
O buraco
Atravessei a cortina do boxe, com seus peixinhos desenhados, e a porta do banheiro num desajeito de aprendiz. Arrastando os pés {flutuavam sobre a aura do carpete} me senti numa esteira rolante. A última imagem viva apagava-se da memória: o tufo de cabelos, Marina, amontoados no azulejo do boxe, imitando um Miró monocromático. Cheguei à sala. Marina? Miró? Mar... Mi... Os nomes escapavam de mim. Olhei através de minhas mãos para a janela fechada. Não via os contornos de meus dedos, nem de meu braço, mas sentia que estavam ali. Deslizei até a cozinha: a mulher de cabelos negros lavava pratos. Fechou a torneira, secou as mãos na saia e atendeu ao telefone:
— Alô... Oi, sim... Ele tá caído lá no boxe do banheiro. Impossível... É... Vou terminar de limpar a louça e depois eu telefono. Certo, beijinho...
A mulher abriu a torneira. Num repente, fui sugado pelo buraco a uma velocidade imensurável. As cores do buraco, listrado de azuis e vermelhos, não cambiavam, mas descreviam espirais hipnóticas. Ao fundo, eu podia ouvir o conjunto de batuques, vozes, gritos. Formavam a melodia mais bela e apavorante que tenho lembrança. Depois, agora, ainda, restaram o silêncio úmido e a queda interminável...
— Alô... Oi, sim... Ele tá caído lá no boxe do banheiro. Impossível... É... Vou terminar de limpar a louça e depois eu telefono. Certo, beijinho...
A mulher abriu a torneira. Num repente, fui sugado pelo buraco a uma velocidade imensurável. As cores do buraco, listrado de azuis e vermelhos, não cambiavam, mas descreviam espirais hipnóticas. Ao fundo, eu podia ouvir o conjunto de batuques, vozes, gritos. Formavam a melodia mais bela e apavorante que tenho lembrança. Depois, agora, ainda, restaram o silêncio úmido e a queda interminável...
Quinta-feira, Setembro 06, 2007
Cenas inescapáveis
O cinema já jogou em nossos olhares imagens móveis, cheias de som ou não, impossíveis de ignorar. Incontáveis somatórios de enquadramento, atuação, fotografia, som, diálogos ou silêncio e et ceteras colam-se à memória afetiva do espectador. E aí, cada um com suas preferências, preconceitos, enfim, cada um com seu gosto particular guarda as imagens que mais lhe apetecem
ou chocam. A cena mais espetacular que já vi no cinema mostra Rebekah Del Rio cantando, num teatro, a capela, a canção Llorando (versão de Crying do animal Roy Orbison). Arrepiante. Fantástico. O filme é Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001) de David Lynch. Eu olhava boquiaberto para os poucos espectadores que assistiam à película em minha companhia. Estupefato era meu estado. Parecia uma apresentação ao vivo. Ver e ouvir aquilo tudo sendo despejado pelo telão foi momento raro. A cena me foi lembrada pelo meu primo e amigo multinacional Carl Inverno. Saudades, meu velho. Quem quiser abocanhar uma vaga idéia do poderio hediondo destes instantes cinematográficos, assista ao vídeo youtubeado clicando AQUI.
ou chocam. A cena mais espetacular que já vi no cinema mostra Rebekah Del Rio cantando, num teatro, a capela, a canção Llorando (versão de Crying do animal Roy Orbison). Arrepiante. Fantástico. O filme é Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001) de David Lynch. Eu olhava boquiaberto para os poucos espectadores que assistiam à película em minha companhia. Estupefato era meu estado. Parecia uma apresentação ao vivo. Ver e ouvir aquilo tudo sendo despejado pelo telão foi momento raro. A cena me foi lembrada pelo meu primo e amigo multinacional Carl Inverno. Saudades, meu velho. Quem quiser abocanhar uma vaga idéia do poderio hediondo destes instantes cinematográficos, assista ao vídeo youtubeado clicando AQUI. Sexta-feira, Agosto 31, 2007
Pichações em muros imaginários
Aos cegos, prometo: um dia ainda picho em braile!
O que os outros pensam que sou é na verdade: um pseudo eu reinventado por uma personagem mal copiada de um simulacro real que interpreto como uma projeção de alguém que não existe mas anda por aí pelas ruas como qualquer outro.
O único cara que sabia tudo sobre a morte morreu ontem, antes de me dizer...
Deus é a soma de tudo, menos nada, multiplicada por onze na vigésima nona potência, mais dois infinitos na metade de meio átomo e algumas coisas que eu não conheço.
Minha vida é um papel secundário numa produção caseira de um filme pornográfico em que as cenas de sexo são feitas por um dublê.
Ass: Tarado Corno.
Pobres de espírito não pedem esmola, talvez...
Os lírios do campo não movem moinhos, nem a tua tia Jurema.
Exigimos tratamento psicológico aos fetos neuróticos já!
Qualquer indivíduo são que tenha o mínimo desejo sincero de tornar-se presidente de repúblicas ou afins é um cretino irrecuperável.
A imaginação é nossa lei, a ilusão nossa rainha, a perfeição eu não sei...
Eu quase compreendi tudo, mas o mensageiro morreu no meio do caminho.
Supercazzola prematurata come se fosse antani e terapia tapioca com escapellamento a destra o a sinistra.
Quinta-feira, Agosto 23, 2007
A safra divina
Eu comia espaguete ao lado de Aurora, regado a litros de Vin du Fou, em cadeiras de palha. O casal trapezista voava sob a lona azul e amarelo. O picadeiro era de compensado. Uma saúva solitária subia pelo verde vidro da garrafa vazia. A toalha imaginava tomates e carambolas sobre a mesa de fórmica. Dois palhaços, Zico e Binote, esperavam fumando o mesmo cigarro pelo instante certo de sua entrada ao sinal das cornetas e tambores. Um porquinho marrom escorregava embriagado numa poça de cachaça caubói ao nosso lado. Enrolei um emaranhado das linhas de massa no garfo inox e joguei tudo na boca. Mastigando, olhei para cima. Vi o pedaço de lua jorrando pelo buraco alto do toldo piramidal. Martina deu cambalhota no ar e segurou as mãos de Vândalo que vinha, cabeça pra baixo, ao seu esperado encontro. O aplauso estourou nas palmas do público. César, o chimpanzé, entrou pulando, enforcado pela borboleta de pano roxo. O picadeiro e a mesa tremeram. Aurora pausou alerta, como se escutasse a risada das oito crianças. César tirou a cartola negra e puxou de dentro um ramalhete de margaridas vermelhas. Jogou-as para uma senhora gorda na platéia e atirou uma cusparada possante nos bigodes cinza do paraguaio na primeira fila. Risadas gerais, aplausos. Cornetas e tambores gritaram, competindo espaço áudio. Aurora bebeu três goles num só de Vin du Fou e perguntou:
— Não é divina a safra de 2001?
Concordei calado e os palhaços entraram.
— Não é divina a safra de 2001?
Concordei calado e os palhaços entraram.
Terça-feira, Agosto 14, 2007
Abismos de fogo
Alguém aí pode nos explicar o robusto empenho do ministro da Defesa, Nelson Jobim, em aumentar o tamanho das poltronas de aeronaves? E isso em pleno pandemônio na aviação nacional? Parece perfumaria com fixador nulo; em nossa humilde opinião é o mesmo que comer terra para matar a sede. Concordamos que os assentos podem ser maiores, deveriam ser. Mas, neste momento caótico, não, por favor. Poltronas mais largas não são assunto vital, ou importante, para a Defesa Nacional. Não enquanto estivermos sentados na chaminé de um vulcão prestes a despertar. Abaixo, declarações de Nelson Jobim divulgadas no portal internético do Ministério da Defesa:
“As empresas passaram a usar aviões maiores comprimidamente”, comentou Jobim, lembrando a própria dificuldade que ele enfrenta em acomodar-se nas cadeiras. O ministro informou que está realizando estudos sobre o assunto, e defendeu o aumento do espaço entre as poltronas. “O espaço vital tem que ser condizente com o tamanho médio do brasileiro, que está crescendo”, disse Nelson Jobim.
Isso cheira a ministraria em Defesa própria, não Nacional. Seja dito que não temos ligações com Zuanazzis ANACianos. Não estamos aqui para louvar as ações positivas de tal ministério, pois tais ações não são nada mais do que o DEVER do órgão federal. O que nos cabe é opinar com o máximo de independência possível sobre o que considerarmos ridículo, podre, irrisório, e etc, nos atos do Governo. Afinal, o que são poltronas largas e confortáveis enquanto deslizamos em pistas de sabão rumo ao abismo de fogo?
“As empresas passaram a usar aviões maiores comprimidamente”, comentou Jobim, lembrando a própria dificuldade que ele enfrenta em acomodar-se nas cadeiras. O ministro informou que está realizando estudos sobre o assunto, e defendeu o aumento do espaço entre as poltronas. “O espaço vital tem que ser condizente com o tamanho médio do brasileiro, que está crescendo”, disse Nelson Jobim.
Isso cheira a ministraria em Defesa própria, não Nacional. Seja dito que não temos ligações com Zuanazzis ANACianos. Não estamos aqui para louvar as ações positivas de tal ministério, pois tais ações não são nada mais do que o DEVER do órgão federal. O que nos cabe é opinar com o máximo de independência possível sobre o que considerarmos ridículo, podre, irrisório, e etc, nos atos do Governo. Afinal, o que são poltronas largas e confortáveis enquanto deslizamos em pistas de sabão rumo ao abismo de fogo?
Sábado, Agosto 04, 2007
Sonho caducante em Sol Menor
Meu amor é punk sem fardamento
Meu rei é liberto mendigo fantasma
Minha fada-madrinha cobra mais barato no lupanar Las Vegas
Meu hino-gemido de implosão dissonante
Paredes de ar tão pesado
Tua catedral de teto estrelado
Minha fronteira eterna linha de horizonte
Tua loja na esquina vende quimeras frescas
Meu sonho caducou no arrastar dos joelhos
Teu líder não sofre de autoridade impostora
Minha Lei é festejo no Arraial Louva-beijos
Tua melodia imolada no miasma das ruas
Salva a carne minha de eus e de outros
Meu disciplinado terror
É pura véspera de calmaria
Tua dor é desejo...
Meu rei é liberto mendigo fantasma
Minha fada-madrinha cobra mais barato no lupanar Las Vegas
Meu hino-gemido de implosão dissonante
Paredes de ar tão pesado
Tua catedral de teto estrelado
Minha fronteira eterna linha de horizonte
Tua loja na esquina vende quimeras frescas
Meu sonho caducou no arrastar dos joelhos
Teu líder não sofre de autoridade impostora
Minha Lei é festejo no Arraial Louva-beijos
Tua melodia imolada no miasma das ruas
Salva a carne minha de eus e de outros
Meu disciplinado terror
É pura véspera de calmaria
Tua dor é desejo...
Segunda-feira, Julho 30, 2007
Olhos fechados
Não há muito o que dizer: morreu Ingmar Bergman (1918/2007), um simples gênio do cinema. Meia dúzia de eternidades de silêncio não podem homenagear a extinção de olhar tão único e poderoso. Soubemos há pouco, pela BBC. Não faz um ano, morreu Sven Nykvist, diretor de fotografia que trabalhou com Bergman em clássicos do cinematógrafo. E o frio continua cortante em nossas mentes subtropicais...
Quinta-feira, Julho 19, 2007
Nostalgia do cinema
Passava das onze quando recebi o chamado. Ouvi a buzina e olhei para o chão, perto da porta de entrada. Na folha de cobre lia-se: Precisamos ajuda urgente!! Ass: D9/C43. Os dois pontos exclamativos significavam sinal de alerta púrpuro. Pousei as alças da bolsa no ombro, vesti o capacete e saí do bangalô Hilster. Abri caminho através do smog. Ainda ouvia os acordes dissonantes da guitarra de Lauren, na memória. Sua voz ainda gemia rouca —lá— por trás e no fundo de tudo. Cocei a cabeça. Sementes de gergelim caíam de meus cabelos. Senti a pressão no braço e girei o corpo num susto. Quase pude enxergar o desenho de meu vulto, borrado no ar, refletindo naqueles olhos. Era meu colega de ginásio, o Berlitz. Estatuei por meio segundo e segui meu passo.
— Aonde vais, amigo? — perguntou Berlitz vindo atrás.
— Resolver um pepino — já estava arrependido antes de acabar a frase — nada demais.
— Pepinos já nascem automaticamente resolvidos.
— HA, HA! — enfatizei os HAs para indicar desprezo hediondo.
— Escuta — disse Berliz arfando —, tenho uns produtos especiais para negócio.
— Não, gracias, caminha, nos vemos.
Apressei o passo e pude ver Berlitz sendo engolido pelo smog.
Quando pisei sobre o Bulevar Arcaico senti um cheiro forte de tâmaras abertas. Tão forte que parecia produzido artificialmente. Lembrei de minha adolescência africana. Mas o cheiro sumiu. Mais um ataque de ilusão aromática. Não sabia o que causava em mim tal embuste olfativo. Andava bebendo demais ou de menos, precisava tomar partido.
Quando cheguei ao distrito 9, como indicado na folha de cobre, o smog estava rarefeito. Ao perceber que a bandeira da praça não estava hasteada, sofri um possante calafrio. Olhei para os lados. Uma senhora vinha na direção contrária. Puxei sua bolsa. Ela me olhou assustada; fugiu. Esperei. Nada aconteceu, ninguém... Avistei um carro estacionado. Joguei a bolsa roubada no chão e recolhi um pedaço de pau que descansava ao meio-fio. Comecei estraçalhando o pára-brisas. As janelas laterais, portas, até que ouvi a sirene às minhas costas. Quatro peões saíram, porretes e algemas, e me recolheram.
Passamos pelos portões com suas grades e sentinelas gigantes. Fui levado até a sala da gerência. O chefe distrital mandou que me colocassem sentado à sua frente e nos deixassem a sós. Coçou os bigodes e disse:
— Te esperava mais cedo.
— Me perdi na névoa...
— Ah... esqueci que tu sofres a nostalgia do cinema — disse ele, fechando um livro. — Tens quinze minutos.
Tirei a garrafa com meio litro de combustível e entreguei ao chefe. Ele me conduziu ao labirinto das celas. Um porão sujo e cinza fedendo a excremento. Pedi que me levasse à cela 43, como orientava a folha de cobre. Abriu a porta de grades, entrei. Sete corpos de homens barbudos dormiam, sentados no chão, as costas na parede, cabeças no ombro. Ludovico me esperava em pé. Quis apertar minha mão. Minha reação o fez desistir.
— Que é isso? — perguntou, tentando pinçar uma semente de gergelim de minha testa.
— Sai, porra — dei um tapa em sua mão —, é gergelim.
Entreguei uma garrafa de combustível a ele. Guardou-a nas cuecas.
— Então? — perguntei.
— Soltaram o Volpato e, segundo o alemão roncando aí embaixo, foi porque ele melodiou tudo pro Marechal — Ludovico esfregava os testículos — o Volpato vai retornar dizendo que fugiu. Abre o olho. Avisa o resto.
— Entendido, em breve a gente se fala.
Saí escoltado pelo chefe que me empurrou dos portões para os abraços do smog e da calçada. Outra quinta-feira qualquer me vingo. Passei pela praça, a bandeira hasteada. Suspirei... governado por denso alívio. Tirei a semente de gergelim da testa e fui procurar o resto da malta.
— Aonde vais, amigo? — perguntou Berlitz vindo atrás.
— Resolver um pepino — já estava arrependido antes de acabar a frase — nada demais.
— Pepinos já nascem automaticamente resolvidos.
— HA, HA! — enfatizei os HAs para indicar desprezo hediondo.
— Escuta — disse Berliz arfando —, tenho uns produtos especiais para negócio.
— Não, gracias, caminha, nos vemos.
Apressei o passo e pude ver Berlitz sendo engolido pelo smog.
Quando pisei sobre o Bulevar Arcaico senti um cheiro forte de tâmaras abertas. Tão forte que parecia produzido artificialmente. Lembrei de minha adolescência africana. Mas o cheiro sumiu. Mais um ataque de ilusão aromática. Não sabia o que causava em mim tal embuste olfativo. Andava bebendo demais ou de menos, precisava tomar partido.
Quando cheguei ao distrito 9, como indicado na folha de cobre, o smog estava rarefeito. Ao perceber que a bandeira da praça não estava hasteada, sofri um possante calafrio. Olhei para os lados. Uma senhora vinha na direção contrária. Puxei sua bolsa. Ela me olhou assustada; fugiu. Esperei. Nada aconteceu, ninguém... Avistei um carro estacionado. Joguei a bolsa roubada no chão e recolhi um pedaço de pau que descansava ao meio-fio. Comecei estraçalhando o pára-brisas. As janelas laterais, portas, até que ouvi a sirene às minhas costas. Quatro peões saíram, porretes e algemas, e me recolheram.
Passamos pelos portões com suas grades e sentinelas gigantes. Fui levado até a sala da gerência. O chefe distrital mandou que me colocassem sentado à sua frente e nos deixassem a sós. Coçou os bigodes e disse:
— Te esperava mais cedo.
— Me perdi na névoa...
— Ah... esqueci que tu sofres a nostalgia do cinema — disse ele, fechando um livro. — Tens quinze minutos.
Tirei a garrafa com meio litro de combustível e entreguei ao chefe. Ele me conduziu ao labirinto das celas. Um porão sujo e cinza fedendo a excremento. Pedi que me levasse à cela 43, como orientava a folha de cobre. Abriu a porta de grades, entrei. Sete corpos de homens barbudos dormiam, sentados no chão, as costas na parede, cabeças no ombro. Ludovico me esperava em pé. Quis apertar minha mão. Minha reação o fez desistir.
— Que é isso? — perguntou, tentando pinçar uma semente de gergelim de minha testa.
— Sai, porra — dei um tapa em sua mão —, é gergelim.
Entreguei uma garrafa de combustível a ele. Guardou-a nas cuecas.
— Então? — perguntei.
— Soltaram o Volpato e, segundo o alemão roncando aí embaixo, foi porque ele melodiou tudo pro Marechal — Ludovico esfregava os testículos — o Volpato vai retornar dizendo que fugiu. Abre o olho. Avisa o resto.
— Entendido, em breve a gente se fala.
Saí escoltado pelo chefe que me empurrou dos portões para os abraços do smog e da calçada. Outra quinta-feira qualquer me vingo. Passei pela praça, a bandeira hasteada. Suspirei... governado por denso alívio. Tirei a semente de gergelim da testa e fui procurar o resto da malta.
{No próximo capítulo: O regresso de Volpato}
Segunda-feira, Julho 09, 2007
Breve nota crepuscular
Vi rascunhos de tragédia transbordando nos olhares de besta famélica dos corpos mutilados, cadentes ou já deitados. Desviava disso tudo pisando nas manchas vermelhas da neve. Penava no desencaixar botas das pegadas fundas que deixavam. O suor de meu corpo exacerbava o frio da baixa temperatura. O tremor polia meus dentes. O medo era débil costume, a urgência de sobreviver um mero hábito. Não ouvia mais os berros guturais, gemidos, explosões. Só os tiros da Panzerfaust acertavam a freqüência, produziam a melodia querida por meus ouvidos. O resto era ruído feio. Acredite, deu tempo de imaginar o funeral de todos aqueles corpos ali jogados. Enlutados chorando, o cheiro de café, o tipo e a cor da madeira do esquife. Escondi meu corpo cambaleante nos destroços de um carro de combate. Queimei as luvas na blindagem quente dos restos do tanque. Falta uma jóia no meu anel de noivado. Coloco um punhado de neve nos joelhos esfolados e penso em meus pais e irmãos. Decido parar de correr, interromper a fuga inútil. Tenho um olho cego e dois dedos da mão quebrados. Escoriações incontáveis pelo corpo e muita fome. O último pedaço de salame comi ontem pela manhã. Um jovem sem capacete passa perto engatinhando sem olhar para mim. A noite insiste em cair sobre os nossos ombros. Já não sinto mais frio. Espero.
Terça-feira, Julho 03, 2007
Devorante
Ela preferiu ser devorada
Naquele velho sobrado-noite
Não quis te decifrar
Caíram muros, desenharam pontes
Mas ela não saiu do lugar
Tu cantavas maravilhas cegas estrangeiras negras
E ela nos esportes de sempre com seus amigos chatos
Tu em teus medos inatos de infantil calibre
Tua má-reputação de magazine
Ela em banhos eternos
Ainda deve estar por lá
Abriste janelas, dia seguinte
Teu pau-durismo e sonho não bastam
Ela deita com as tribos que não te querem
Ela chegou bem depois de onde vieste
A dúzia de beijos e a noite são pouco
Ela parou no tempo
Não quis te decifrar
Bah...
Naquele velho sobrado-noite
Não quis te decifrar
Caíram muros, desenharam pontes
Mas ela não saiu do lugar
Tu cantavas maravilhas cegas estrangeiras negras
E ela nos esportes de sempre com seus amigos chatos
Tu em teus medos inatos de infantil calibre
Tua má-reputação de magazine
Ela em banhos eternos
Ainda deve estar por lá
Abriste janelas, dia seguinte
Teu pau-durismo e sonho não bastam
Ela deita com as tribos que não te querem
Ela chegou bem depois de onde vieste
A dúzia de beijos e a noite são pouco
Ela parou no tempo
Não quis te decifrar
Bah...
Sexta-feira, Junho 22, 2007
Quadros de horror cotidiano
Recentes Medidas Provisórias reajustaram em 140% o salário de cargos comissionados – gasto anual de R$ 475,6 milhões – e criaram mais de 600 cargos de confiança – custo de R$ 2,65 milhões mensais para o Governo. Nada de mais.
O presidente Lula falou no dia 14 último: “O Brasil é talvez o único país em que os brasileiros viajam para fora e falam mal do Brasil. Você não vê um suíço falar mal da Suíça, não vê um italiano falar mal da Itália, mas os brasileiros adoram falar. Nós temos que cuidar da nossa imagem, temos que cuidar daquilo que nós queremos preservar...” Ele quer preservar essa maravilha que vemos todos os dias. Ele acha que pode comparar Suíça e Brasil. Ele pensa que primeiro-mundanos não criticam suas mazelas. Ele quer que não haja críticas. A ditadura acabou senhor presidente
A novela Renan Calheiros, o presidente do Senado, é, segundo ele próprio, uma forma de “conduzir o Senado à uma crise institucional". Então ‘tá.
E a Reforma Política, em discussão na Câmara dos Deputados, EscárniOficina considera um engodo ridículo. Roubará solenemente do eleitor a livre escolha de seus candidatos entre outras tragédias. Vexame, Vergonha. Não poderemos nem mais escolher os nossos ladrões.
Agora leia essa sem chorar: O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou hoje (21) que haja um "caos aéreo" no Brasil. Segundo Mantega os atrasos e cancelamentos de vôos nos aeroportos são "parte do preço do sucesso da economia". O motivo dos atrasos, segundo ele, é o "aumento do fluxo de tráfego por causa da prosperidade do país". Enfim, os pequeninos probleminhas do espaço aéreo são culpa do esplendor atual que vive o nosso Brasil. URRA!!!
[Fonte: Radiobrás - Agência Brasil]
O presidente Lula falou no dia 14 último: “O Brasil é talvez o único país em que os brasileiros viajam para fora e falam mal do Brasil. Você não vê um suíço falar mal da Suíça, não vê um italiano falar mal da Itália, mas os brasileiros adoram falar. Nós temos que cuidar da nossa imagem, temos que cuidar daquilo que nós queremos preservar...” Ele quer preservar essa maravilha que vemos todos os dias. Ele acha que pode comparar Suíça e Brasil. Ele pensa que primeiro-mundanos não criticam suas mazelas. Ele quer que não haja críticas. A ditadura acabou senhor presidente
A novela Renan Calheiros, o presidente do Senado, é, segundo ele próprio, uma forma de “conduzir o Senado à uma crise institucional". Então ‘tá.
E a Reforma Política, em discussão na Câmara dos Deputados, EscárniOficina considera um engodo ridículo. Roubará solenemente do eleitor a livre escolha de seus candidatos entre outras tragédias. Vexame, Vergonha. Não poderemos nem mais escolher os nossos ladrões.
Agora leia essa sem chorar: O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou hoje (21) que haja um "caos aéreo" no Brasil. Segundo Mantega os atrasos e cancelamentos de vôos nos aeroportos são "parte do preço do sucesso da economia". O motivo dos atrasos, segundo ele, é o "aumento do fluxo de tráfego por causa da prosperidade do país". Enfim, os pequeninos probleminhas do espaço aéreo são culpa do esplendor atual que vive o nosso Brasil. URRA!!!
[Fonte: Radiobrás - Agência Brasil]
Quinta-feira, Junho 14, 2007
Vendem-se álibis
A estrada é tirana, filho. Não leva tão longe quanto se quer mas leva. E chega a demorar a passagem do curto trajeto. Abutres planam círculos de espreita, que espalham névoas contagiosas de medo. Seu vôo de esfera imperfeita só almeja desenhar nossa carcaça. Há cobras culebras que atravessam pernas desavisadas suando litros de veneno carnívoro; cuida. E, logo ali, passando o vale de areia movediça e os pântanos de lava descansa uma praia, lagoa, muito mato, fim da linha de cascatas e um resto de mundo estranho capaz de te fazer brincar com os caranguejos mais idiotas. Lá tem o Bosque das Ninfas que vão te cozinhar em caldeirões de agruras estupendas e delícias lancinantes. Te aconselho, sem convicção, que não converses com o Velho da Rocha. Ele sabe demais. E tudo que ele disser pode projetar teu corpo-quimera numa viagem cega sem volta, guiada por dois lêmures sociopatas e bêbados. Dança os ritos da tribo se for pra ti valia, mas segue antes a lei rarefeita de teus próprios passos, que o presente é ensaio de coreografias mortas. Na região dos banquetes chovem iguarias cotidianas saborentas e vinhos psicodélicos, tudo em troca de papéis alegóricos, é óbvio. Em orgias nababescas vais regozijar, em festa de amigos, em louvor ao invisível que ofusca. Descarte as tentativas patéticas de influência dos cretinos que teu instinto saberá reconhecer. E também escute meio surdo o que te fala teu pai. Que aqui no belo pardieiro impensável somos todos dementes, dignos de infinita e nenhuma pena. A gente toda tem culpa do crime que não houve naquela noite chuvosa. Mas vendem-se álibis solitários em qualquer esquina. Verás animais polidos com a bruta força lenta de massiva água esculpindo pedra, enjaulados ou em coleiras de aço. Não mires os olhos desses animais, te rogo. Acostuma-te aos gritos fantasmas de fábulas banais narrados por vozes de vento. Não entrega teus miolos à propaganda de imperadores e asseclas. Tais patifes só falarão algo que preste quando Godot chegar. Se alcançares os hotéis oniriantes peça um quarto, fique por algumas luas. Agora vê se dorme, guri, que eu não agüento mais inventar história...
Quinta-feira, Junho 07, 2007
A invenção de um feriado
A diretoria de EscárniOficina acaba de instituir, em reunião aberta, o Feriado Universal da Vagabundagem, singela honraria aos incontáveis vadios presos na armadilha imperial ou nas jaulas reais da necessidade de sobrevivência. O Ato Institucional nº 759 declara que tal data será comemorada todas as terças-feiras do ano. Não obstante, haverá trabalho nestes dias ó brutus homo sapiens ignaru, pois, além da cloaca universal – arte humana em progressão atabalhoada –, o leitinho-das-crias vai, aos muitos, transformando-se em ouro, id est, muito mais caro e com gosto mais estranho. Você aí, que sonha em atirar seu cadáver adiado* nos confortos da próxima esquina, anime-se: o Trinca-de-seis, o Segura-tridente, o Rabo-de-flecha gargalhará engasgando-se numa cena vexatória e vergonhosa. E os fregueses de inferninhos esquecerão as chamas por um instante eterno.
*O Ministério Salubérrimo adverte: Uma roubadela nas imagens de Fernando Pessoa não faz mal a outrem. Abaixo os versos do poeta português:
D. SEBASTIÃO
REI DE PORTUGAL
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa (Mensagem)
*O Ministério Salubérrimo adverte: Uma roubadela nas imagens de Fernando Pessoa não faz mal a outrem. Abaixo os versos do poeta português:
D. SEBASTIÃO
REI DE PORTUGAL
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa (Mensagem)
Quarta-feira, Maio 30, 2007
Sem comentários inúteis
A Agência de notícias do Senado acaba de
publicar matéria que dispensa comentários:
O Plenário do Senado aprovou, nesta quarta-feira (30), o Projeto de Decreto Legislativo (PDS) 88/07 que fixa os salários dos deputados e dos senadores em R$ 16.512,09, com reajuste de 29,81% relativo à inflação de dezembro de 2002 a março de 2007. Em seguida foi acolhida também proposta (PDS 89/07) que reajusta os subsídios mensais do presidente e do vice-presidente da República, bem como dos ministros de Estado. O salário do presidente será elevado para R$ 11.420,21. Já o vice e o ministro passarão a receber R$ 10.748,43.
As duas propostas iniciaram sua tramitação no início de maio na Câmara dos Deputados e seus efeitos financeiros retroagem a 1º de abril de 2007. As matérias seguem para promulgação.
Os senadores Jefferson Péres (PDT-AM) e José Nery (PSOL-PA) declararam voto contrário à aprovação do PDS 88/07.
Desculpem, só dois comentários inocentes:
- É muito pouco, senadores...
- Que é isso, Péres e Nery? Que falta de piedade...
publicar matéria que dispensa comentários:
O Plenário do Senado aprovou, nesta quarta-feira (30), o Projeto de Decreto Legislativo (PDS) 88/07 que fixa os salários dos deputados e dos senadores em R$ 16.512,09, com reajuste de 29,81% relativo à inflação de dezembro de 2002 a março de 2007. Em seguida foi acolhida também proposta (PDS 89/07) que reajusta os subsídios mensais do presidente e do vice-presidente da República, bem como dos ministros de Estado. O salário do presidente será elevado para R$ 11.420,21. Já o vice e o ministro passarão a receber R$ 10.748,43.
As duas propostas iniciaram sua tramitação no início de maio na Câmara dos Deputados e seus efeitos financeiros retroagem a 1º de abril de 2007. As matérias seguem para promulgação.
Os senadores Jefferson Péres (PDT-AM) e José Nery (PSOL-PA) declararam voto contrário à aprovação do PDS 88/07.
Desculpem, só dois comentários inocentes:
- É muito pouco, senadores...
- Que é isso, Péres e Nery? Que falta de piedade...
Terça-feira, Maio 22, 2007
Calibragem de Rum
– Aquilo é um beija-bundas especializado, com carteira assinada e o escambau, rapaz. Não me compara, por favor.
– É, mas enquanto a gente chafurda nesse labirinto impossível, o Leocádio tá lá, naquela reta, com esteira elétrica e ar-condicionado e.
– Pois é...
– Viste que a Martine caiu da janela?
– O quê? Morreu?
– Não, não. Sabe, né, quando alguém cai do 10º piso é – Ai! Paft! Mas se a queda for do 1º andar fica no – Paft! Ai! Quebrou uma perna, só. E aquela ali tu conhece: dá uma facada no coração dela e quem morre é o boneco de vodu.
– Puisé, rapá, mas mudando o assunto, e a situação política e econômica atual, hein, hein?
– Ah, cala essa boca. Calibra essa bebida que nem gente. Bota mais rum nesse cuba-libre aí, por favor...
– É, mas enquanto a gente chafurda nesse labirinto impossível, o Leocádio tá lá, naquela reta, com esteira elétrica e ar-condicionado e.
– Pois é...
– Viste que a Martine caiu da janela?
– O quê? Morreu?
– Não, não. Sabe, né, quando alguém cai do 10º piso é – Ai! Paft! Mas se a queda for do 1º andar fica no – Paft! Ai! Quebrou uma perna, só. E aquela ali tu conhece: dá uma facada no coração dela e quem morre é o boneco de vodu.
– Puisé, rapá, mas mudando o assunto, e a situação política e econômica atual, hein, hein?
– Ah, cala essa boca. Calibra essa bebida que nem gente. Bota mais rum nesse cuba-libre aí, por favor...
Sábado, Maio 12, 2007
Constituição de carne nº 90909090987
Não, Valldenúria, não é a Gioconda de cabeça pra baixo. Ela tem vários nomes e sonha com orgias de oito meses em arraiais lunares. Nunca viu um agente do FBI chorar e teve uma tia vítima da Frente de Libertação dos Anões de Jardim (FLNJ - Front de Libération des Nains de Jardin). Em dias nublados de maio, recorda o arroz-de-acampamento, feito por Yara, servido em pratos de ágata com um menino loiro desenhado no fundo. Não sabe da fúria solene de senadores milionários em achaques de centopéia com cãimbra no pé 28 (expressão gentilmente roubada do honorável Maviel Junqueira, o fantástico mordedor de gelo). Não alimenta ilusões e nem ursos no Jardim Zoológico. Pensa na salvação do riso e na redenção da gargalhada como a cura para bichos-de-pé. Assiste o vaivém das luas com lábios úmidos e abertos. Não se perde nunca nas curvas do quadrado ou nas esquinas da perfeita esfera. É uma simples constituição de carne desmiolada e povoada de mitribilhares desejos.Após o clique do telefone celular que aprisionou a imagem acima numa fotografia, ela despertou feroz.
– Que é isso, Ba ba ca! Deixa dormir...
Deixamos.
[Modelo: Edelva Salgado – Foto: Ariovaldo Mendes]
Quinta-feira, Maio 03, 2007
Escancarando tumbas
FADE IN:1. INT. SALÃO DE ATOS DA UFRGS. TARDE
O auditório está quase lotado, exceto quatorze ou quinze assentos. O público aplaude. José Mojica Marins entra no palco por uma portinhola de madeira. O volume de aplausos aumenta. Ele agarra um microfone que jaz numa cadeira com estofado vermelho. As palmas diminuem.
JOSÉ MOJICA MARINS
Voocê!!... Vooocê!!...
Assim começou o bate-papo com José Mojica Marins. Os redatores de EscárniOficina estavam lá, ontem, no auditório do Salão de Atos da UFRGS. A pedido do próprio palestrante, nossos repórteres não fizeram perguntas cretinas. Comemorando 50 anos de carreira, o cineasta conversou com o público sobre sua vida e arte. Seus filmes “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (1964, 84 min) e “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver” (1967, 108 min) são as duas primeiras partes de uma trilogia que será encerrada em março do ano que vem com o lançamento de “A Encarnação do Demônio”. Despido de sua célebre personagem, o Zé do Caixão, Mojica esbanjou humor contando suas histórias terríveis. Falou de seu começo difícil, a luta contra a ditadura, censores e padres que não o compreendiam. Um destes padres teria dito ao pai do cineasta após a
exibição de seu primeiro filme: “Seu Antônio, seu filho é um débil mental”. Ah, a incompreensão humana...
Mojica esclareceu os mal-entendidos que o estereotiparam como “Maldito” e falou da fita de sexo explícito que realizou, protagonizada por um cachorro, este um rei das preliminares. Satisfeito, em seus 70 anos, sentenciou: “Eu que era trash, agora virei cult”. A história da ressurreição de um cataléptico que foi abandonado pela família e amigos após levantar do caixão é fantástica e de uma tristeza hedionda.
exibição de seu primeiro filme: “Seu Antônio, seu filho é um débil mental”. Ah, a incompreensão humana...Mojica esclareceu os mal-entendidos que o estereotiparam como “Maldito” e falou da fita de sexo explícito que realizou, protagonizada por um cachorro, este um rei das preliminares. Satisfeito, em seus 70 anos, sentenciou: “Eu que era trash, agora virei cult”. A história da ressurreição de um cataléptico que foi abandonado pela família e amigos após levantar do caixão é fantástica e de uma tristeza hedionda.
Em seu olhar único, Mojica afirmou que nunca riu com Chaplin. Os olhos tristes do célebre vagabundo o impediam ao riso. Sobre cinema: “Gosto de fitas épicas, policiais com suspense. Hitchcock é o mestre. Não gosto de comédia. A melhor fita de terror para mim é ‘O bebê de Rosemary’. O Polanski nunca vai fazer outra igual. Também gostei do ‘Poltergeist’ do Spielberg (produção e roteiro)”, declarou Mojica.
Frases de José Mojica:
“Pior do que o cigarro, só uma coisa. A pior coisa do mundo é a coca-cola.”
“O Zé do Caixão não acredita em porra nenhuma.”
“Vou fazer o que eu gosto: Terror.”
“A primeira tomada que vi no cinema foi um detalhe, um close-up de uma vagina com gonorréia.”
“...o terror é você! Você descobriu que agora é um verme...”, esta última é de uma das crônicas de Mojica.
Encerrando a conversa, o cineasta é rodeado por uma turba de fanáticos.
Frases de José Mojica:
“Pior do que o cigarro, só uma coisa. A pior coisa do mundo é a coca-cola.”
“O Zé do Caixão não acredita em porra nenhuma.”
“Vou fazer o que eu gosto: Terror.”
“A primeira tomada que vi no cinema foi um detalhe, um close-up de uma vagina com gonorréia.”
“...o terror é você! Você descobriu que agora é um verme...”, esta última é de uma das crônicas de Mojica.
Encerrando a conversa, o cineasta é rodeado por uma turba de fanáticos.
FADE OUT.
{Foto 1 – Vini Mania / Foto 2 – Maurício Saldanha}
Sexta-feira, Abril 20, 2007
Carne de Morango
Durante o serviço noticioso, regado a meio litro de Château Le Blanc, ele sofreu uma espécie genérica de epifania. Por 49 segundos, ficou despejando através dos negros olhos a solidão pequena de um copo vazio. Primeiro veio a sensação de peso sobre o corpo, como o abraço de um polvo seco. Depois a dormência de minúsculos seres rastejantes ziguezagueando por dentro da pele. Terminando, era um estar-tudo-no-lugar-certo tão evidente que socava-o, gentil, com lufadas de muito bem ser e aromas de puro prazer grudento. Antes que o ponteiro dos segundos completasse a volta no relógio da cozinha ele foi sugado pelo brusco despertar. Restou um sorriso débil atrás da barba.
Naquele mesmo dia, ele almoçara num bufê pese-pague do Centro. Estava sentado, mesa oito, lendo jornal, bebendo um aperitivo. Duas moças ao lado conversavam e ele não conseguia deixar de escutar.
– Te lembra do Carne de Morango? Aquele artista, nascido aqui, o que assustava ruivas. Foi até processado... aquele que fez o arqueólogo psicopata na novela das sete. É, esse. Eu li numa revista que...
Não agüentou o papo “fraco” e foi servir-se. Voltou com feijão, arroz, rúcula e bife no prato. Já não prestava atenção à conversa das moças. Pensava nos juros bola-de-neve que devia ao banco. Comeu três garfadas do arroz e feijão e levantou-se, correndo em direção ao banheiro. Vomitou na pia o alimento processado. Lavou o rosto, pagou a conta, e saiu do estabelecimento. O que ele não tinha como saber (e nós sabemos por fonte fidedigna) é que meia hora antes, uma dupla de pseudo-revolucionários borrifara uma solução de arsênico na refeição do restaurante. Um deles trabalhava num laboratório, do qual afanou o veneno. Dezoito pessoas foram internadas no pronto-socorro, aquela tarde, por suposta intoxicação. O grupo, autodenominado Falange Morbus, é composto por dois jovens incompetentes, como se pode deduzir pelo patético atentado.
Andando pela Sete de Setembro, ele sentia os fios de suor escorrerem pelas costas e pernas. Antes de chegar à praça da Alfândega, foi acometido por uma cãimbra na panturrilha. Ficou sentado no chão por dois minutos esticando a perna esquerda. Levantou, sentindo uma fraqueza leve nos pés, com um estranho gosto de alho na boca. Decidiu ir ao mercado comprar uma garrafa de vinho e morangos. Não imaginava, mas seis horas depois desistiria do suicídio.
Naquele mesmo dia, ele almoçara num bufê pese-pague do Centro. Estava sentado, mesa oito, lendo jornal, bebendo um aperitivo. Duas moças ao lado conversavam e ele não conseguia deixar de escutar.
– Te lembra do Carne de Morango? Aquele artista, nascido aqui, o que assustava ruivas. Foi até processado... aquele que fez o arqueólogo psicopata na novela das sete. É, esse. Eu li numa revista que...
Não agüentou o papo “fraco” e foi servir-se. Voltou com feijão, arroz, rúcula e bife no prato. Já não prestava atenção à conversa das moças. Pensava nos juros bola-de-neve que devia ao banco. Comeu três garfadas do arroz e feijão e levantou-se, correndo em direção ao banheiro. Vomitou na pia o alimento processado. Lavou o rosto, pagou a conta, e saiu do estabelecimento. O que ele não tinha como saber (e nós sabemos por fonte fidedigna) é que meia hora antes, uma dupla de pseudo-revolucionários borrifara uma solução de arsênico na refeição do restaurante. Um deles trabalhava num laboratório, do qual afanou o veneno. Dezoito pessoas foram internadas no pronto-socorro, aquela tarde, por suposta intoxicação. O grupo, autodenominado Falange Morbus, é composto por dois jovens incompetentes, como se pode deduzir pelo patético atentado.
Andando pela Sete de Setembro, ele sentia os fios de suor escorrerem pelas costas e pernas. Antes de chegar à praça da Alfândega, foi acometido por uma cãimbra na panturrilha. Ficou sentado no chão por dois minutos esticando a perna esquerda. Levantou, sentindo uma fraqueza leve nos pés, com um estranho gosto de alho na boca. Decidiu ir ao mercado comprar uma garrafa de vinho e morangos. Não imaginava, mas seis horas depois desistiria do suicídio.
Terça-feira, Abril 17, 2007
Ministro de Amanhãs
Foi no mínimo engraçadinho. O Jornal da Globo noticiou ontem: Guido Mantega, ministro da Fazenda, tentando convencer as agências de classificação de risco, em Nova Iorque, num charlate clássico, a qualificar o Brasil com o tal do "Grau de Investimento", uma espécie de garantia, ou atestado de segurança, de que há pouco risco em investir no País. Até aqui, oda-se, tudo bem, não importa. O que fascinou nossa equipe de redação foram as declarações sensacionais de Mantega em entrevista aos jornalistas: "Eles olham os números daquilo que aconteceu, então eles conhecem mais o passado e o presente. Conhecem menos o futuro, e aí eu pude enunciar as intenções do governo em relação à dívida pública, o déficit público, a responsabilidade fiscal, o cuidado com a inflação, o desejo de continuar as reformas...”. Sorte a nossa, não? Guido Mantega, além de exercer a honorável ministraria, é profeta, o Rei do Vaticínio, vidente do futuro que ninguém percebe. Com um ministro desses (que, segundo o presidente Lula, paga para trabalhar, visto o miserável salário) não queremos mais nada. Feche-se a fábrica de desejos. Estamos safos como futura próxima vítima de tiroteio. Certo, o que vale é a intenção, como diria o Sicrano. Então tá. EscárniOficina parabeniza Guido Mantega pela eficiência genética em produzir uma filha tão bela...
{ Thomé veste Louis Fernand (Tiaaaguuuus!!!) e Chicot }
{ Thomé veste Louis Fernand (Tiaaaguuuus!!!) e Chicot }
Sexta-feira, Abril 13, 2007
Oompa Loompa, Yojimbo e Lolita
Algumas refilmagens da história do cinema são realmente nauseabundas. Podem ser bem feitas, competentes com ótimos atores e o diabo, mas...
Comecemos por Lolita (1997), dirigido por Adrian Lyne. Terrivelmente chato, desnecessário. O clássico de Stanley Kubrick (1962) diz tudo perfeitamente e ainda não perdeu atualidade. Baseado no romance de Vladimir Nabokov e com roteiro escrito pelo próprio autor, o filme já começa com uma tomada perfeita: Lolita pintando as unhas dos pés num close-up. Peter Sellers, Shelley Winters, Sue Lyon, James Mason, elenco beleza pura e a direção do cavalo Kubrick. Pra que mais? Qualquer refilmagem é sacrílega.
Outro é A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, 2005) direção do Tim Burton, um cara que admiramos. Pode ser um filme de qualidade, bem executado, mas fora de propósito. O original Willy Wonka & the Chocolate Factory (1971), direção de Mel Stuart e também com roteiro do autor do livro Charlie and the Chocolate Factory, Roald Dahl, é uma viagem fantástica e não precisa de reparos. E coitadinho do Johnny Depp, em comparação ao Gene Wilder. O guri faz bem o papel do Willy Wonka, mas o Gene Wilder é fora de série. Oompa Loompa, camaradas!
Uma exceção é o filme Por um punhado de dólares (A Fistful of Dollars /Per un pugno di dollari – 1964), clássico do chamado faroeste Spaghetti Western, dirigido pelo animal Sergio Leone. Protagonizado por Clint Eastwood (O homem sem nome), o filme foi inspirado por uma película de Akira Kurosawa: Yojimbo, de 1961. Preferimos o Yojimbo, mas o farwest do Leone não tem explicação de tão bom.
Comecemos por Lolita (1997), dirigido por Adrian Lyne. Terrivelmente chato, desnecessário. O clássico de Stanley Kubrick (1962) diz tudo perfeitamente e ainda não perdeu atualidade. Baseado no romance de Vladimir Nabokov e com roteiro escrito pelo próprio autor, o filme já começa com uma tomada perfeita: Lolita pintando as unhas dos pés num close-up. Peter Sellers, Shelley Winters, Sue Lyon, James Mason, elenco beleza pura e a direção do cavalo Kubrick. Pra que mais? Qualquer refilmagem é sacrílega.
Outro é A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, 2005) direção do Tim Burton, um cara que admiramos. Pode ser um filme de qualidade, bem executado, mas fora de propósito. O original Willy Wonka & the Chocolate Factory (1971), direção de Mel Stuart e também com roteiro do autor do livro Charlie and the Chocolate Factory, Roald Dahl, é uma viagem fantástica e não precisa de reparos. E coitadinho do Johnny Depp, em comparação ao Gene Wilder. O guri faz bem o papel do Willy Wonka, mas o Gene Wilder é fora de série. Oompa Loompa, camaradas!
Uma exceção é o filme Por um punhado de dólares (A Fistful of Dollars /Per un pugno di dollari – 1964), clássico do chamado faroeste Spaghetti Western, dirigido pelo animal Sergio Leone. Protagonizado por Clint Eastwood (O homem sem nome), o filme foi inspirado por uma película de Akira Kurosawa: Yojimbo, de 1961. Preferimos o Yojimbo, mas o farwest do Leone não tem explicação de tão bom.
Terça-feira, Abril 03, 2007
Lista alternativa de recordes fantásticos
Jane Harrison, 30 anos, construiu o mais alto castelo de areia de 50 centímetros. Está localizado (quiçá ainda esteja) no Monte Everest, protegido por uma redoma de plástico tibetano.
Jujubinha, interno do Hospital Psiquiátrico Charles Manson, foi o homem que mais fez embaixadas com bola dente-de-leite imaginária. Quarenta mil embaixadas consecutivas; sem deixar cair, é óbvio.
Mirtes Valigur, 57, modelou a maior bola de meleca já registrada, com dois metros e trinta de diâmetro e aspecto aparentemente repulsivo.
Melvin Hubbard, 29, comeu a maior quantidade de tatus-bola em menos tempo. 3 milhões de exemplares do mamífero em uma hora e meia. Não mastigou, logo, não havia parado de rir até o exato momento desta publicação.
G.C., 42, foi abduzido por uma mesma nave alienígena rosa-shocking, mais de 4.347 vezes (Fato em processo avançado de comprovação). G.C. é provavelmente a pessoa que mais nos considerou idiotas durante toda a triagem. Algum dos dois recordes ele bate certo...
Lucca Muir, 36, comprovou ter utilizado muito mais que os 10% usuais de trabalho cerebral. Usou quase 85% ao tentar evitar com a própria cabeça a queda de uma bigorna em direção à calçada.
Envie seus recordes fantásticos, devidamente registrados em cartório ou similar, para avenida raio que os parta, 171, bairro socorro!!!
Jujubinha, interno do Hospital Psiquiátrico Charles Manson, foi o homem que mais fez embaixadas com bola dente-de-leite imaginária. Quarenta mil embaixadas consecutivas; sem deixar cair, é óbvio.
Mirtes Valigur, 57, modelou a maior bola de meleca já registrada, com dois metros e trinta de diâmetro e aspecto aparentemente repulsivo.
Melvin Hubbard, 29, comeu a maior quantidade de tatus-bola em menos tempo. 3 milhões de exemplares do mamífero em uma hora e meia. Não mastigou, logo, não havia parado de rir até o exato momento desta publicação.
G.C., 42, foi abduzido por uma mesma nave alienígena rosa-shocking, mais de 4.347 vezes (Fato em processo avançado de comprovação). G.C. é provavelmente a pessoa que mais nos considerou idiotas durante toda a triagem. Algum dos dois recordes ele bate certo...
Lucca Muir, 36, comprovou ter utilizado muito mais que os 10% usuais de trabalho cerebral. Usou quase 85% ao tentar evitar com a própria cabeça a queda de uma bigorna em direção à calçada.
Envie seus recordes fantásticos, devidamente registrados em cartório ou similar, para avenida raio que os parta, 171, bairro socorro!!!
Quarta-feira, Março 28, 2007
Vanguarda replay e a Curva
Fui ao mesmo escuro bar
Em que outros bitolados foram antes
Sentei à mesma mesa
Falei ao mesmo garçom
Pedi o mesmo xis lombinho com ovo
Que outros deglutiram ontem
Bebi a mesma cerveja fria
Com os mesmos pensamentos vãos
Vivi os mesmos banais sentimentos
Inventei a mesma contracultura bárbara
De vanguarda furiosa que outros patentearam anteontem
Repeti os mesmos erros básicos
Cheguei ao mesmo estado ébrio
Ai! Só não mordi a mesma língua
E aí chegou Flávia de vestido preto
E a noite já não era
Nem vista de um longe míope
A mesma noite de outros
Porque era eu, porque era ela
Numa fábula diferente
No vento de riso forte
Na eterna festa de andar sem mapa
De dois castelos de genes sem par.
Em que outros bitolados foram antes
Sentei à mesma mesa
Falei ao mesmo garçom
Pedi o mesmo xis lombinho com ovo
Que outros deglutiram ontem
Bebi a mesma cerveja fria
Com os mesmos pensamentos vãos
Vivi os mesmos banais sentimentos
Inventei a mesma contracultura bárbara
De vanguarda furiosa que outros patentearam anteontem
Repeti os mesmos erros básicos
Cheguei ao mesmo estado ébrio
Ai! Só não mordi a mesma língua
E aí chegou Flávia de vestido preto
E a noite já não era
Nem vista de um longe míope
A mesma noite de outros
Porque era eu, porque era ela
Numa fábula diferente
No vento de riso forte
Na eterna festa de andar sem mapa
De dois castelos de genes sem par.
Quarta-feira, Março 21, 2007
Baú fétido
Um garoto míope de 14 anos sobe a escada que leva ao sótão. Ao abrir a porta, percebe que o local está limpo. Tão limpo que ainda cheira a Biovax sabor morango, o detergente que limpa até pensamento. Cadeiras de plástico amontoadas umas sobre as outras descansam num canto. Há uma pequena janela redonda com um vitral colorido que, com pinceladas de luz solar, pinta rosas e verdes e azuis no assoalho brilhante. Ele olha para seu relógio Uymang, os ponteiros mais pontuais da Era Cinza, e vê que são três horas. 14 caixas de papelão este-lado-para-cima foram empilhadas na parede oposta à janela. O garoto não sabe, mas imagina que estão vazias e sua intuição está correta. No centro, ao chão, está um baú de madeira canela-merda (Nectandra cissiflora). A impressão é de que as luzes bailavam ao redor do pequeno baú numa ciranda muda. Mas não, os raios coloridos moviam-se tão lentamente que passavam por imóveis. Era tudo a sensação do rapaz, sua curiosidade, receio e quase delírio, seus movimentos em direção ao baú. Sentou-se em posição de lótus em frente ao objeto supostamente recheado de mistérios, nada, aranhas etc. Tentou abri-lo. Trancado. Puxou do bolso de sua bermuda verde, o canivete Pagda, 14 funções, que seu tio lhe presenteou com um é pra vida toda orgulhoso. Começou a bolinar o buraco da fechadura com seu inseparável companheiro de lâminas inoxidáveis e depois de dois minutos ouviu o Cléck de abertura esperado. Foi puxando a tampa. Ali dentro, diversas bugigangas. Um baralho de cartas plásticas com desenhos de Pin-ups da mitologia norueguesa. Um maço de figurinhas de célebres jogadores de Ludo da Província de Garbo. Algumas fichas de um cassino clandestino de Não-Me-Toque. Duas lupas, uma com a lente quebrada. Um labirinto de papelão para formigas e um toco de vela vermelho. No fundo, uma folha pautada de papel reciclado com uma espécie de lista manuscrita em tinta azul. Lendo, não demorou a reconhecer seu conteúdo.
— O beijo que não roubou de Fabiana no feriado de Reis,
— A surra que deixou de aplicar em Marcelo,
— A torta de maçã que não quis comer na entrada do ano,
— O catecismo do Zéfiro que teve medo de afanar na banca do Tio Patinhas...
Uma relação acurada composta por 88 atos que o garoto deixou de cometer em seus quase quinze anos de vida. Chorou, chorou muito, até que as lágrimas se recusassem a escapar de seus olhos ou simplesmente não mais existissem. Ignorante de que nos próximos 73 anos ainda deixaria de cometer um incontável número de ações variadas, mas nenhuma destas mais importantes do que aquelas.
— O beijo que não roubou de Fabiana no feriado de Reis,
— A surra que deixou de aplicar em Marcelo,
— A torta de maçã que não quis comer na entrada do ano,
— O catecismo do Zéfiro que teve medo de afanar na banca do Tio Patinhas...
Uma relação acurada composta por 88 atos que o garoto deixou de cometer em seus quase quinze anos de vida. Chorou, chorou muito, até que as lágrimas se recusassem a escapar de seus olhos ou simplesmente não mais existissem. Ignorante de que nos próximos 73 anos ainda deixaria de cometer um incontável número de ações variadas, mas nenhuma destas mais importantes do que aquelas.
Quarta-feira, Março 14, 2007
Privilégios da quadrilha pública
E ainda nos perguntam por que temos fortes tendências anarquistas — utópicas e ingênuas (não a anarquia que os dicionários propagam, e sim a organização alternativa da sociedade sem a sombra de um DesGoverno fantasiado de democrático e, ah, vá pesquisar). Leia só:
Informações divulgadas, ontem, pela agência de notícias da Câmara Federal, expuseram que o presidente da tal casa, Arlindo Chinaglia (nada de trocadilhos redundantes por favor), pretende colocar na pauta dos deputados, votação para estender julgamento com foro privilegiado para ex-autoridades públicas. Espertos em cargos públicos já possuem o doce privilégio. Amargo pro resto de nós.
Em declaração publicada no Jornal do Comércio (RS) de hoje, Chinaglia mostrou o desenvolvimento de suas idéias como ser humano e político, afirmando: "Na época (em 2002 o Congresso discutiu o mesmo assunto, mas o STF acatou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) e derrubou a lei, que chegou a ser promulgada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) eu era de oposição e me posicionei contrário a isso porque me parece que foi uma sugestão do ex-presidente Fernando Henrique. Agora, reconheço que tenho ouvido ponderações por parte de deputados e juristas de que isso não é ruim para sociedade {[SOCORRO}]. Mas não me cabe, como presidente da Câmara, dar opinião pessoal. Não tenho muito esse direito''. Justificativa bisonha para um ato horrendo e injustificável. E a explicação para a mudança de pensamento, no mínimo, patética.
Já basta, e transborda dilacerando nossas carnes, o foro privilegiado para os cargos públicos em exercício. Qualquer comentário chega a ser ridículo.
Para não despencarmos em maniqueísmos infantis (quem dera, pudesse...), louvamos uma declaração feita, também ontem, por Arlindo Chinaglia, em debate na Ordem dos Advogados do Brasil: “Sou totalmente contra qualquer reeleição no Executivo”. Ao menos alguma coisa ele pensa que realmente presta. Foi uma vergonha que FHC e LULA tenham sido reeleitos. Com todo o poder da máquina pública por trás e a cara mais dura e deslavada que já se viu desde o rascunho das “Mil e Uma Noites”. Naquele nosso País, inventado por fantasias puras, que só existe em nossos interiores remotos ou em filmes de Bollywood, os dois digníssimos estariam respondendo judicialmente com pente-fino por tal acinte.
Informações divulgadas, ontem, pela agência de notícias da Câmara Federal, expuseram que o presidente da tal casa, Arlindo Chinaglia (nada de trocadilhos redundantes por favor), pretende colocar na pauta dos deputados, votação para estender julgamento com foro privilegiado para ex-autoridades públicas. Espertos em cargos públicos já possuem o doce privilégio. Amargo pro resto de nós.
Em declaração publicada no Jornal do Comércio (RS) de hoje, Chinaglia mostrou o desenvolvimento de suas idéias como ser humano e político, afirmando: "Na época (em 2002 o Congresso discutiu o mesmo assunto, mas o STF acatou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) e derrubou a lei, que chegou a ser promulgada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) eu era de oposição e me posicionei contrário a isso porque me parece que foi uma sugestão do ex-presidente Fernando Henrique. Agora, reconheço que tenho ouvido ponderações por parte de deputados e juristas de que isso não é ruim para sociedade {[SOCORRO}]. Mas não me cabe, como presidente da Câmara, dar opinião pessoal. Não tenho muito esse direito''. Justificativa bisonha para um ato horrendo e injustificável. E a explicação para a mudança de pensamento, no mínimo, patética.
Já basta, e transborda dilacerando nossas carnes, o foro privilegiado para os cargos públicos em exercício. Qualquer comentário chega a ser ridículo.
Para não despencarmos em maniqueísmos infantis (quem dera, pudesse...), louvamos uma declaração feita, também ontem, por Arlindo Chinaglia, em debate na Ordem dos Advogados do Brasil: “Sou totalmente contra qualquer reeleição no Executivo”. Ao menos alguma coisa ele pensa que realmente presta. Foi uma vergonha que FHC e LULA tenham sido reeleitos. Com todo o poder da máquina pública por trás e a cara mais dura e deslavada que já se viu desde o rascunho das “Mil e Uma Noites”. Naquele nosso País, inventado por fantasias puras, que só existe em nossos interiores remotos ou em filmes de Bollywood, os dois digníssimos estariam respondendo judicialmente com pente-fino por tal acinte.
Domingo, Março 11, 2007
Enigma dos dípteros volantes
As grandes perguntas da existência humana são:
- Quem inventou a mosquinha de banheiro?
- E quando, por quê, C O M O ? Já que nunca testemunhamos tal simpático inseto fora de um Water Closet reservado?
- E antes de existirem banheiros, onde se enfiavam esses redondos gordinhos?
Quem tiver maiores informações favor escreva para Caixa Postal 53BO99-Y. Os desocupados que mandarem trotes, brincadeiras, respostas irônicas e mentiras deslavadas serão esquartejados com faca de serrinha, e bastante afinco e esmero, por nosso serial killer de estimação; a não ser que seja afilhado, ou afins, de:
a) políticos influentes de partidos nanicos,
b) vagabundos famosos,
c) milionários metamaterialistas,
d) mulheres vesgas chamadas Adelaide, ou
e) membros do Horror Supremo Federal.
- Quem inventou a mosquinha de banheiro?
- E quando, por quê, C O M O ? Já que nunca testemunhamos tal simpático inseto fora de um Water Closet reservado?
- E antes de existirem banheiros, onde se enfiavam esses redondos gordinhos?
Quem tiver maiores informações favor escreva para Caixa Postal 53BO99-Y. Os desocupados que mandarem trotes, brincadeiras, respostas irônicas e mentiras deslavadas serão esquartejados com faca de serrinha, e bastante afinco e esmero, por nosso serial killer de estimação; a não ser que seja afilhado, ou afins, de:
a) políticos influentes de partidos nanicos,
b) vagabundos famosos,
c) milionários metamaterialistas,
d) mulheres vesgas chamadas Adelaide, ou
e) membros do Horror Supremo Federal.
Segunda-feira, Março 05, 2007
O reverso da propaganda
Era uma vez uma empresa chamada coca-cola que num dia desses comprou uma marca popular de cerveja aqui no Brasil. E, logo, começou seu marketing cocainista pesado em cima da bebida amarela. Até aí, nada demais. O primeiro problema é que o tal líquido é ruim mesmo. E o segundo e mais grave é que a Coca estava fazendo pressão junto aos estabelecimentos comerciais de Porto Alegre (Falamos de onde vivemos) para que a sua cerveja fosse vendida com nauseabunda exclusividade. E, pior, alguns donos de bares e casas noturnas e assemelhados acabaram cedendo, pusilânimes. Nada de outras marcas, só a da COKE. Indignados, eu e o amigo ViniMania empreendemos o sítio EuOdeioKaiser.com, atualmente desativado. Diga-se que foi o Vinicius que fez todo o trabalho árduo de montar a página. Parece que a nossa atitude, e a de outros camaradas desconhecidos que devem ter botado a boca no trompete contra tal acinte, surtiu algum efeito. Poucos bares, hoje, vendem kaiser com exclusividade. Tomaram na cabeça e aprenderam empiricamente. Isso é uma espécie de prova de que nem a poderosa coca-cola pode com a manifestação pública de repúdio. Este tipo de mobilização deveria funcionar não somente nos direitos de consumidor etílico, mas também em relação a direitos ‘gratuitos’ e vitais que dizem o ser humano possuir. Quem quiser pode assistir a um modesto e tosco audiovisual, veiculado pelo YouTube, feito por nós contra o referido monopólio clicando AQUI. Mobilização já!
Post Scriptum: O baixinho da kaiser só pega aqueles corpinhos sarados porque a coca paga bem...
Post Scriptum: O baixinho da kaiser só pega aqueles corpinhos sarados porque a coca paga bem...
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