Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

Lami farewell

Recebemos ontem informações não-confirmadas de uma fonte protegida pelo código de ética de EscárniOficina. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Há livros da Editora Rarefeita sobre o assunto, filmes off-hollywod e filmes off-bollywood, reportagens em jornais mainstream da ilha de Baré-Cola e talvez algum CD com o Cid Moreira narrando a história. Ouvimos numa roda etílica-festiva. Maminhas, vazios e picanhas assavam sobre carvão ardente. Salsichões, pães e também dois espetos de coração de galinha (um trivial genocídio galináceo).

A bebida começou a fazer efeito e nosso informante foi despejando tudo com a desenvoltura de um Fidel em seus discursos: Aguilar, nosso amigo guatemalteco, partira anteontem numa jornada espiritual para o interior de uma garrafa de rum. Sentado na areia da praia do Lami, olhava o céu estrelado, a garrafa pela metade, quando ouviu aquela voz feminina, enroucada e melosa, cantando O telefone chora a uns quinhentos metros dali. A menina de pele morena e cachos dourados que pousavam no ombro cantava alimentando a fogueira de gravetos. Aguilar aproximou-se, olharam-se. Cambiaram magras palavras. Ela disse o nome: Ritamaura. Iluminados pelo fogo, miraram olhos recíprocos por um quarto de hora ou mais em silêncio. Entrelaçaram as mãos num prefácio curto para o beijo demorado de vinte e nove cancelamentos adiados. E amaram-se ao zelo indiferente da lua minguante. Dormiram sonhos perdidos até o raiar da manhã de quarta-feira. Aguilar despertou num susto, abraçado por terríveis presságios em relação a seu avô e irmãos que ainda moravam na Guatemala. Rogou que Ritamaura esperasse o seu inevitável retorno, pois no momento precisava ir-se. Beijou a carne grossa dos lábios de Ritamaura e correu até mergulhar na água, nadou até a Ponta Grossa e pegou um ônibus para o Centro. Foi pedir um dinheiro emprestado a outro amigo nosso, dono de uma casa noturna badalada por um público de classe média alta e adjacências. Embarcou no primeiro avião disponível. Abatido por deixar Ritamaura sozinha, afogada em olhares vesgos para as ondinhas encrespadas da água castanha na beira do Lami.

PS: Nosso informante é barrigudo, ostenta um bigode grosso e grisalho, ouve vozes estranhas e sua branda esquizofrenia desabrocha violenta ao tempero do álcool. Mas ele é muito boa-praça. (E Belafonte segue cantando através das caixas de som: Sad to say I’m on my way / Won’t be back for many a day / My heart is down / My head is turning around...)

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