Sexta-feira, Março 14, 2008

Prelúdio para um rompimento

Sapatos de salto caem no asfalto, dois pretos, um vermelho. Um rapaz de terno riscado olha para cima. O xale de pele castanho-escuro atinge o chão. A mãe de cabelos louros carrega o filho de meio metro, ele tropeça num vestido vermelho. Uma garota magra recolhe os sapatos. Cai uma saia plissada, rosa, chutada por um senhor de bigodes grisalhos. O garçom do café em frente olha pela janela, vê a bolsa de couro preto despejada através da janela, quarto ou quinto andar.
Pepita agarra a caixa de charutos, recheada de bijuterias, e corre ao parapeito da janela. Pára. Olha pra baixo. Roupas, cores, gente, a ladeira asfaltada. Desiste; larga a caixa no sofá-cama e aperta os punhos. Vai à cozinha, serve um copo de cachaça, não bebe. Larga o copo na pia. Repara a falta de três azulejos na parede. Pega a garrafa de cachaça pelo gargalo e sai entornando.
Liga o rádio, música eletrônica, começa a pular. Chuta bolas imaginárias, cai de joelhos, chora em seco, apoiada na mesa de canto. A garrafa balança no parquê, despejando um fio de cachaça. Pepita tateia o sofá e encontra sua bolsa. Abre o fecho e pesca uma latinha de pastilhas. Aperta o meio da latinha redonda e a tampa se desprende. Com a unha rosada do minguinho tira porção do pó branco e estica uma linha no vidro da mesa de canto. Ao lado do abajur, uma nota de um Real enrolada. Aspira a linha do pó e levanta a cabeça, fungando. Encosta o queixo no peito, olha para os seios que tentam escapar do vestido, os mamilos salientes. Dá um tapa na latinha provocando a nuvem do pó, dá sua última aspirada. Levanta-se e corre à janela. A vertigem abraça seu corpo num zoom de meio segundo. As mãos tremelicando pousadas sobre o parapeito, cuja tinta branca está descascando. Não percebe, mas não há mais roupas nem sapatos na rua. Gente desce ou sobe a ladeira. Mira o chão. A vontade não é legítima, o asfalto provoca mais repulsa que atração. Os punhos cerrados, joga o corpo sobre o sofá. Procura cigarros na bolsa, acende um com o isqueiro bic vermelho. Seis tragadas fundas e joga a ponta no canto vazio da sala. Seu olhar vai atravessando o tubo da televisão, as paredes, os prédios vizinhos, não pára. Queria chorar, nada.
Pepita ouve vozes no corredor. Levanta e vai à cozinha. Abre a gaveta do armário debaixo da pia. Tirilim, desliza a mão sobre os talheres, agarra o cabo azul-claro da faca de pão. Esconde os cabelos atrás das orelhas e sai, passos mudos. Parada frente à porta, Pepita aperta o cabo da faca. Reconhece as vozes abafadas. Pode ouvir o que dizem, mas não escuta nada. O barulho da chave destranca a fechadura. Pepita expulsa o ar pela boca. A porta é aberta.

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