Sexta-feira, Abril 18, 2008

Cinema de ônibus

Eu escutava a Charlotte Gainsbourg cantando — que guarda só pra mim um sinal-de-beleza, íntimo, impresso perto do coração, ela esconde do resto do mundo essa marca natural na pele, essa pinta privada, e guarda pra mim —, quando o ônibus chegou. Embarquei, então, no Serraria rumo Centro. Onze e meia da manhã e eu ainda me sentia embriagado. Sentei esperando ouvir mais música nos fones de ouvido e ver o que eu chamo de cinema de ônibus. Eu sou fascinado por esse simples passatempo de coletivo: ver passando na janela as ruas, casas, gente, a paisagem da cidade, enfim. Acho que o resto do mundo inteiro que anda de ônibus tá nessa. Mas, eis que grudado na janela um adesivo gigante me impedia ao cinema trivial. O adesivo era propaganda de um sistema de transporte integrado da prefeitura de Porto Alegre, o TRI como eles chamam (só pra usar aquelas expressões prontas tri-legal, tri-bom, tri-afudezinho nas publicidades). Porra, o sistema pode ser uma beleza, mas propagandear desse jeito não dá. Sinceramente, eu já acho que atos da administração pública não deveriam ter publicidade, nem merecem. Mas essa é pra trucidar o caboclo. Privar um coitado bagaceiro da (talvez) única diversão que uma viagem de ônibus pela cidade pode proporcionar é sacanagem. Mais uns quinze minutos sentado, olhando praquele adesivo miserável, e a Charlotte foi embora com sua Beauty Mark, her favourite part. Agora eu ouvia a Elza Soares cantando que nela ninguém manda e um assento ficou vago no outro lado do coletivo. Troquei de lugar e a nova janela estava livre da publicidade nojenta e pude ver meu cinema de ônibus com Elza na trilha sonora. Vou ver se mando uma reclamação pra empresa de transportes da prefeitura. Será que adianta??? Então está, fui... tou indo pescar no Arroio Dilúvio.
Mas vou pra lá tri na pernada...

0 Urros e Sussurros: