Domingo, Abril 27, 2008

Mamãe viaja

Fazia nem seis meses que a gente namorava: Eu numa paixão de ferver gelo no ato, teu pai não sei. Ele tinha esse amigo, o Carioca, amigão mesmo, mas era um pirado. O Enrique então me convidou: Vamos acampar? Lá nos Aparados da Serra, lugar genial e parapá. Me diz se eu não ia aceitar? Na hora. Eu, ele, o Carioca e a namorada, Tânia ou coisa assim. Um ônibus até São Chico e outro até os Aparados. O segundo ônibus era de filme. Hollywood filmando na Colômbia. Lotado, a gente em pé, uma velha segurando um porquinho marrom e branco, galinha em jaula, uns lavradores fumando palheiro, vai inventando mais aí por ti, era real. Chegamos. O que teu pai não me falou foi dos oito quilômetros de chão na pernada até o Malacara, o Canyon lá que a gente ia acampar. Aí já olhei pra ele de lado, que paixão o quê. Saltou pra fora o meu comodismo. Mochila nas costas, fomos bebendo vinho em garrafão de plástico, o que salvou.
No lugar, eu fiquei louca. Que vista. Vou, em direção, me aproximo e vejo: um buraco enorme de rocha e verde aos meus pés, lá embaixo uma nuvem, uma nuvem! Perdoei tudo na hora. Teu pai chega e me agarra por trás, me dá um beijaço, nossa senhora. Montamos acampamento, duas barraquinhas mixa pra cada casal. E aí a gente senta num pedregulho à beira do abismo, bah! Quando a gente viu aquela nuvem se aproximando, vindo, subia aquela massa branca. E chega, começa a passar por nós a bruma fria, e eu olho pros três que também me olham e a gente não acredita. A sensação é chapante, te deixa louco de cara, que narcótico o quê. Aquilo ali é o que é. Nuvem viva te ultrapassando e tu enxerga ela se movimentar numa velocidade que. Um gelado gostoso, eu agarrada no colo do Enrique e os outros dois, ali, calados os quatro de boca aberta com a maravilha.
Bateu a noite, jantamos sardinha no pão e leite condensado e vinho. Conversando até altas. Fazia frio mas tranqüilo. Nem usamos as barracas, só no bivaque, no cheiro da madruga dentro do saco.
No outro dia, exploramos as trilhas e tudo. Nublou o céu. Almoçamos sardinha no pão, e água. Não deu meia hora, chuva. Chuva mesmo. Nos enfiamos pra dentro da barraca, quem disse? Entrava mais água do que lá fora. Fizemos uma tenda com um pedaço de lona que alguém tinha levado. Só pra enganar mesmo. Uma hora, tou eu sentada sozinha embaixo da tal lona, senta o Carioca do meu lado. Pega o potinho de benzina que a gente usava pro fogo e começa a cheirar aquilo. Abri o olho, grande. Ele diz: “Calma, relax”. Me oferece; claro, nem preciso te... recusei. Ele fica viajando um pouco sentado, quieto. Levanta. Chove menos agora. Ele vai, sumindo na bruma, em direção ao abismo. Eu, só olhando. Aí me dou conta. Levanto, corro, grito: Carioca, Carioca! Ele se vira. Falei pra ele, fiquei preocupada e tal, tu viajando de benzina indo direto pro abismo... Ele respondeu que não estava louco pra tanto.
Reunião de quadrilha. Menos chuva, mas ainda chuva, não dá. Vamos embora. Fomos. Oito quilômetros de volta, sorte que ainda tinha vinho. Chegamos à entrada do Parque. O plano era descer caminhando até Praia Grande pela estrada. Seguimos. Logo, passou um caminhão, nos deu carona. Nós e caixas de banana na carroceria, na chuva, no vento da descida, um frio desgraçado. E desce, desce, não chega, desce mais um tanto, continua descendo e desce até o plano, e roda, roda, roda até à entrada da cidade. Molhados e tremendo, tardezinha, mais um quilômetro. Chegamos ao centro. Uma lanchonete, um xis reforçado com ovo pra matar aquela fome. Ficamos sabendo de uma festa. Quem sabe? Andamos à procura de um local e encontramos à beira de um rio, não lembro o nome, acho que é Mampituba. Tinha um restaurante com um telhado e chão seco, era ali mesmo. Resgatamos roupa seca em sacolas de plástico e que maravilha. Roupa seca, sabe lá o que é isso. A melhor coisa que inventaram. Resolvemos dar uma deitada antes da tal festa. Que festa o quê. No outro dia, beleza, sol, um banho de rio, mais sardinhas no pão, ônibus, casa.

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