Sexta-feira, Abril 04, 2008

Trezentos e trinta e seis; um, dois, três, quatro...

Tenho medo, tanto medo, irmãzinha, me encolho fetal com frio nos ossos, entranhas refrigeradas, não espirro temendo que a alma me escape entre os perdigotos metralhados. aperto as pálpebras tentando cegar os olhos mas é inútil, eles enxergam monstros verdes em metamorfose contínua e são lindos deitados no fundo quase negro. lambo o suor dos braços, mordo indicadores de leve – tenho medo que os dentes estilhacem, despencando pela garganta. quero dormir, não consigo, lá no fundo interno imagino os sonhos tão reais que posso engrenar no sono e me provoco à insônia. tento desenhar no televisor da mente, com auxílios débeis da memória, luares mares brisas embriagadas na areia gelada, mas os rugidos automóveis atrás desta janela desmentem meu esforço. tenho medo, irmãzinha, tenho fraqueza por orgulho, exponho minhas feridas e tripas abertas provocando apenas risos ou aplausos ou nada. tranquei tantos sentimentos e perdi a chave e agora quase nem sinto mais, quase. cansei de recontar os trezentos e trinta e seis alvéolos da bola de golfe do tio Amaro e de tentar a hipnose com a chama da vela. cubra meu corpo, irmãzinha, tire a minha febre pela última vez. meus seios e carnes murcharam há décadas, num dia treze às onze e meia, duas horas depois, revirginei. o resto, todo o resto, seguiu escada abaixo. tenho medo, irmãzinha, de ainda ser.

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