Quinta-feira, Maio 29, 2008
Uns goles sóbrios
O calor dominou minha cara e a garganta ardia do pedaço de salsicha recém-mastigado. Bebi o suco de uva do copo num gole e fiquei rolando dois cubos de gelo na boca. Os outros gritavam ao redor, eu não prestava atenção. Olhava além da janela o Corsa branco que fazia a curva na esquina e sumia indo embora pela avenida, lá, atrás daqueles prédios caixotes verdes e suas janelas abertas ou fechadas ou semi-ambos. Mordi o que restava do gelo e engoli os cacos. Recusei outro pedaço da salsicha, esbarrei em alguém e fui até o armário das garrafas. Licores, uísque, vodca, uísque, capturei a garrafa gordinha de tequila e retirei o sombreiro pequeno de palha pendurado no gargalo. Entre pratarias e cristais, garimpei um copinho de argila magra. Vão me fazer botar as doses na roda, pensei, mas não. Bebiam cerveja, fazia trinta e nove graus, suavam entretidos em conversa-televisão-música-risos-carne-..., ou talvez me evitassem num fingimento — por piedade. Virei num gole apenas a primeira dose, depois fui bebendo uns goles sóbrios, intervalos curtos. Escutei um barulho de vidro quebrar na sacada. Corpos passaram, voltaram, vultos vindo-indo-vindo. Descansei a mão na perna e senti o volume no bolso da bermuda: a carteira de couro, os documentos, o dinheiro, quase tudo. Descolei os lábios e lembrei do tanque vazio do Corsa branco. Sorri pasmado feito idiota afogado num microscópico triunfo. Servi mais, bebi, outra vez bebi, servi e avante. (...) Acordei no escuro, nu, ao lado um corpo quente roncava grudado no meu. Colchão mole demais e ligeira dor na cabeça. Por um segundo quis ligar o abajur, reconhecer o corpo, levantar, ir ao banheiro, beber água, procurar um remédio, vestir as roupas, sair dali, voltar pra casa. Mas outro segundo veio e despenquei a nuca no travesseiro, me obriguei a dormir.
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2 Urros e Sussurros:
Mto bom Yousaffa...
mto bom mesmo!!
legal que tu curtiu, meu velho. tô pago...
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