Quinta-feira, Junho 19, 2008

Alguns fatos revistos

É fato que não gosto daqueles filmes musicais nos quais as personagens começam a dançar e cantar de um minuto pra outro. Mas a morte recente da atriz-dançarina Cyd Charisse me lembrou de um clássico do cinema que eu só vim a assistir decentemente há uns quatro anos: Cantando na chuva (Singin' in the Rain - 1952). Esse espetáculo filmado escancarou minha boca, as coreografias com o Gene Kelly e o animalzinho do Donald O’Connor são hard-core. Só vendo. Muito além da cena básica (e clássica demais) do Gene Kelly cantando e dançando na chuva. Os caras ensinam numa performance absurda o que é um ator completo e todo o seu esforço. Continuo não gostando de musicais, mas esse é um dos melhores filmes que eu já vi. Tá, vão dizer, é um clássico, cala essa boca. Calei...

É fato: prum cara como eu, educado na infância e adolescência pela escola Hollywood de cinema, pode ser um pouco complicado digerir um filme alemão, com pouca ação e diálogos, em preto e branco e com mais de duas horas de duração. E mesmo que a minha idade insista em me convencer que eu cresci, sou adulto e já gostei até de cinema iraniano, ainda acho brabo acreditar na minha maturidade. Mas aí veio o Saldanha e me proporcionou um verdadeiro Festival Wim Wenders me emprestando uns DVDs do cara. Já tinha visto alguns outros filmes dele e já tinha gostado de alguns (O céu de Lisboa; Paris, Texas; Asas do desejo, O fim da violência; Estrela Solitária etc). Mas assistir numa semana quatro filmes, feito num Ciclo Wenders, nunca. E são às vezes longos, outras vezes parados e monótonos e também perturbadores. E não é mais cinema alemão, é multinacional. Não foi passeio no parquinho, mas o grande poder de narrativa e profundidade subentendida e fotografia e entrelinha e... que eu enxerguei ali foi sem precedentes. (desculpem comentar os quatro juntos, e superficialmente, como estivessem numa sacola). Listo aí embaixo pra quem quiser embarcar, mas não aceito reclamações. Se não me engano foi o Jabor que saiu com essa frase genial e justa: “Wim Wenders e aprendendo”.

1974 - Movimento em falso (Falsche bewegung)
1976 - No decurso do tempo (Im lauf der zeit)
1980 - Um filme para Nick (Nick's movie - Ligthning over water)
1982 - O estado das coisas (Der stand der dinge)

Sim, é fato: não costumo assistir a filmes mudos. Sou um trivial produtinho do meu tempo. Mas, comentando outro clássico, acendo um fósforo no incêndio. Vi faz uns bimestres o filme “Aurora” (Sunrise: A Song of Two Humans -1927), do diretor alemão F.W. Murnau. Ah, é perfeito, demais, cavalo, sobrenatural, simples e espantoso. Posso ver Aurora quantas vezes for, fui enfeitiçado. Bate qualquer tecnicolor com roteiro superelaborado e diálogos extraordinários e atores completos e. Bah!, eu muito dramático, pateticamente me ajoelho.

É fato: nunca tinha visto nenhum filme do Claude Lelouch. Até que, mais uma vez, o Saldanha (valeu) me emprestou “Um homem, uma mulher” (Un homme et une femme - 1966), e Crimes de autor (Roman de gare - 2007). O primeiro eu gostei mas deixa pra lá. Queria só dizer do segundo que tem um enredo muito bem tramado e é entretenimento de primeira. E a música Le cerisiers sont blancs, do Gilbert Bécaud, que eu não conhecia e curti toca lá. Vale ver. Depois disso vi “A coragem de amar” (Courage d'aimer, Le - 2005), gostei também, mas com algumas restrições que não vou repartir porque enchi o saco de escrever. É fato: cinema é pra ser visto. Nem que seja pra avacalhar depois.

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