Segunda-feira chuvosa, mais uma entre tantas. Antes de entrar, um cigarrinho básico que nenhum fumante é de ferro. O Saldanha me mostrou a tatuagem feita do autógrafo rabiscado no braço pelo David Lynch. E entramos no Hotel Sheraton sob as caretas de mau (cinematográficas) de um segurança do shopping Moinhos. Subimos por um elevador dourado espelhado metido a chique até o quarto andar. Era lá, numa saleta cheia de cadeiras e jornalistas e fotógrafos, que aconteceria a coletiva de imprensa do cineasta alemão Wim Wenders. Wenders veio a Porto Alegre para apresentar a palestra “Cinema além das fronteiras”, na programação do evento Fronteiras do Pensamento (Copesul Braskem).Cabelos longos e falando inglês com algum sotaque, o cineasta afirmou de início que nasceu num país apagado pelos efeitos da segunda guerra. Wenders desde cedo sempre quis saber como viviam as pessoas em outros lugares do mundo, chegou a viajar para a Holanda com sua primeira bicicleta, a curiosidade, segundo ele, o instigava a conhecer novos países: “Sou um cineasta e também um fotógrafo, mas viajar se tornou minha profissão”.
Falando sobre a força que a “sensação de estar em algum lugar” exerce sobre ele, Wenders fez questão de salientar que seus filmes não são conceituais nem cerebrais.
Sobre cinema brasileiro o cineasta afirmou: “Eu lembro de ter visto Antonio das Mortes (O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha) e achar que era uma das melhores coisas que já tinha visto”.
Questionado a respeito de seus pais cinematográficos, Wenders recordou seus primórdios: “Quando eu comecei meus pais artísticos eram pintores. O cinema alemão possuía apenas avôs. Só fui ver os filmes de Fritz Lang anos depois em Paris”.My American Adventure - Em sua incursão cinematográfica pelos Estados Unidos, Wim Wenders descobriu (o óbvio) que nunca se tornaria um diretor norte-americano: “Eu sou uma romântica alma alemã”.
Nos anos noventa, o cineasta parou de ler as críticas. Wenders não queria acreditar nas críticas positivas e muito menos pensar que era um pedaço de merda lendo as negativas.
Alguém sentado à minha frente perguntou quão traumática havia sido a filmagem de Um filme para Nick (Nick’s Movie – Lightning over water). Escrito em parceria com o diretor Nicholas Ray, o filme mistura documentário e um pouco de ficção e retrata os últimos dias de Ray, na época em fase terminal de câncer. Segundo o diretor alemão, ele pensou em interromper as filmagens por causa do estado de Ray, mas o médico insistiu que parar de filmar era a única coisa que não podia ser feita: “Toda a equipe do filme lembra muito mais a experiência do que o trabalho finalizado”, disse Wenders.
Sobre o documentário Quarto 666 (Chambre 666, 1982), em que diretores de diversos países comentam sobre o futuro do cinema, o cineasta lembrou o tom de pessimismo retratado no filme como um erro. Afirmou que o único diretor que tinha razão era o italiano Michelangelo Antonioni com sua visão otimista sobre o cinema: “Às vezes não há nada melhor do que estar errado”, completou o diretor alemão.
Wim Wenders falou ainda sobre algumas vantagens da tecnologia digital para o cinema, como por exemplo um ensaio filmado que pode acabar se transformando na cena pronta.
Na saída, o Saldanha reclamou da barreira que armaram para evitar o contato com Wim Wenders. Ele queria um autógrafo do homem no braço pra tatuar depois. Esperando na parada de ônibus pelo C3, falei pra ele {a respeito de outro assunto maior que não vem ao caso (nem sei se ele ouviu)} que tudo que acontecia, tinha que acontecer. Terrível, tudo bem, mas achei que encaixava bem no episódio da tatuagem.
Horas depois, o Saldanha me liga dizendo que foi pra UFRGS, na saída da palestra do WW e falou com a mulher dele, a fotógrafa Donata Wenders, sobre a idéia de tatuar o autógrafo do cineasta. “You’re crazy”, foi a resposta de Donata. Mas, pra terminar, o alemão acabou rabiscando alguma coisa no braço do Saldanha acima do perfil já tatuado da Nina Simone. Quero ver que tatuagem vai sair disso. Invejo essa paixão de pele rasgada pelo cinema.

3 Urros e Sussurros:
ahahha, ao eliminar, pensei que sumiu. então: eu invejo essa tua capacidade de escrever. e...sim, te ouvi antes de adentrar o C3.
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