Terça-feira, Setembro 16, 2008

Impossível regresso

Quando ele voltou de Xangri-lá, sua casa estava em outra rua, construída com diferentes materiais, mobiliada com outros modelos de mesas e cadeiras e armários e camas. Sua família não carregava mais o sobrenome italiano e todos restavam transfigurados física jurídica e psicologicamente. Seus amigos tinham dinheiro no banco e vestiam roupas sofisticadas em reuniões de conversas sofisticadas umedecidas por bebidas sofisticadas. Sua escola ensinava matemáticas inexatas e obscuras, biologias mitológicas e idiomas impronunciáveis. Suas bandas punk-pop prediletas tinham novos nomes e integrantes e tocavam e cantavam em ritmos e tons e timbres distintos músicas desconhecidas com letras alteradas na essência e nas margens. Quando ele voltou de Xangri-lá, seu Labrador Retriever chamado Pancho substituíra-se por um siamês chamado Gato. Suas roupas com etiquetas de outras grifes exibiam cores mais vivas que de costume e exalavam perfumes estranhos de amaciantes antes ignorados nas prateleiras dos supermercados. Sua comunidade religiosa ouvia liturgias misteriosas ministradas por um pregador mascarado louvando divindades minerais. Quando ele voltou, suas fotografias registravam instantes desatentos e alheios à sua memória. Os livros que mais lia antes de voltar mostravam agora capas transformadas com títulos e autores trocados nas lombadas forasteiras e eram escritos em idiomas ilegíveis. As ruas de sua cidade não tinham os mesmos nomes de antes e levavam a destinos extravagantes. E dominado pelas evidências, desertou suas bagagens afetivas e passou a acreditar em tudo, em todos... quando ele voltou de Xangri-lá.

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