Domingo, Setembro 28, 2008

Não é fuga

É, meu irmão, não quero mais gastar meu tempo criando outras vidas enquanto ainda posso inventar a minha. Quero gastar a sola das botas na buraqueira da estrada, procurando perfume transitório de lar e pulsão nas curvas e retas. Não penso em guardar dinheiro e adquirir eletrodomésticos essenciais ou meios de transporte metálicos em quatro rodas que só vão girar quando o trânsito da cidade resolver desengarrafar. Os anos em que vegetei por aqui investiram essa urgência dominante em mim agora. Tenho que partir. Deixo minha coleção de discos e livros contigo, mesmo que nossas preferências sejam tão discordantes e tu não vá fazer grande uso dela. Escreve, escreve aí por mim, meus dedos querem digitar carne e sujeira e grama e não teclas de plástico. Cansei de imaginar personagens em situações irreais e verossímeis, quero ver eu mesmo o que for nos lugares que conseguir alcançar. Não, não é fuga não, pode crer. É perseguição mesmo. De repente, dentro dumas, todo o resto de tudo é que fugiu de mim, mesmo que tenha continuado perto, ao alcance da mão. E tudo que eu enxergo ao fechar os olhos são mapas amassados e horizontes e chuva e poeira no ar e lonjura. E sinto o chão queimando meus pés e preciso correr pra começar a andar. Chega de limo e teias e filosofemas imóveis nos mesmos bairros e bares e ruas. Quero levar minha sombra pra passear sem hora ou dia ou mês ou ano marcados pra voltar. Não precisa entender, irmão. Dá um beijo e um abraço e chora comigo a previsão da saudade. E me empurra e diz vai embora!, antes que eu paralise, vai.

3 Urros e Sussurros:

laralto disse...

Porra Urtiga..
caraio rapá..

Cristiano disse...

Um dos melhores senão o melhor... abraço

Thomé disse...

repercussão inesperada, meus véios...abraço.