Terça-feira, Outubro 07, 2008
Reminiscências brumais
Amarrei o cadarço do meu Kichute com duas voltas na canela e bebi outro gole de Mountain Dew com Velho Barreiro. Tinha um gosto ruim mas já começava a inebriar. O Marcelo jogava X-Man no vídeo game, masturbando enlouquecido o joystick ele tentava atingir o orgasmo com aqueles bonecos nus e deformados do jogo da Atari. O tio Paredes olhava de vez em quando praquele desenho tosco e broxante na tela e dizia: Isso é bom, isso é bom. Eu dei uma risada com um desses isso-é-bom do tio e me babei todo e passei a mão na boca e no queixo e limpei a mão na cortina bege da despensa. O tio Paredes se afundou quieto de volta nos classificados do jornal e o Marcelo xingou a mãe de todos ali, não tinha conseguido chegar lá. Iniciou outra jogada e foi manejando o joystick pra avançar e recuar o seu boneco por aquele labirinto pra esquivar o pau das tesouras e dos caranguejos e das dentaduras. O Twiggy encostou a orelha na minha perna e me arrepiei, ele vinha desde a porta da cozinha se arrastando no frio do azulejo naquele rastejar de cão velho cego manco. Bebi um gole do MountainDewVelhoBarreiro e me agachei e passei a mão no pêlo do Twiggy. Bem no canto da cozinha, perto do botijão de gás e das vassouras de palha, o Bibi atacava o Forte Apache com seus índios berradores e ao mesmo tempo defendia o Forte com seus ‘bravos’ soldados da cavalaria. Me lembro bem quando olhei uma das torres do Forte cair e dois soldados pularem e a tribo invadir aos berros. Mas era sempre como nos filmes e nos livros de História que mandavam a gente ler — os índios do Bibi também se fodiam. Quando olhei pra cima, a tia Rita estava lá me olhando com aquele torto nas sobrancelhas, ela segurava o meu copo, cheirou e me puxou pelo braço. Gritou comigo, Já te falei, Não pode, Cachaça, Faz mal, E de manhã, Seu bostica; e me puxou a orelha de leve e gritou com o tio Paredes que levantou os olhos dos classificados e coçou o bigode num murmúrio covarde (Muitos anos depois, me contaram que a tia Rita, quando eu era bebê, convenceu minha mãe a passar aguardente no bico dos peitos pra atiçar minha fome de leite). Ouvi um ruído que vinha do vídeo game e logo depois um grito índio do Bibi. Então me lembrei dos gatinhos e saí correndo e gritei pro Marcelo e ele demorou um pouco mas veio atrás. E abrimos a porta de madeira velha e verde da casinha e aquela cena horrível. O meu filhote preto (que também era do Bibi e da Stelinha) deitado com um buraco imenso e vermelho na barriga. E o filhote do Marcelo (que também era da Valqui) não tinha mais cabeça, só um olho sobrava naquele avermelhado vivo de carne morta que saía do corpo do gatinho. E eu comecei a chorar e o Marcelo também e a tia e o tio e o Bibi saíram da cozinha. O tio Paredes falou que aquilo só podia ter sido coisa das ratazanas que andavam por baixo da casinha. E eu não entendia como um rato podia fazer aquilo com um gato, aquilo desmentia tudo que eu já tinha ouvido até ali. E o tio disse que tinha ratazanas pesando meio boi debaixo daquela casinha. E eu já podia imaginar os pesadelos que ia ter com as ratazanas e o olho solitário do gato por toda a minha vida em diante. Eu e o Bibi e o Marcelo paramos de chorar e, fora tia Rita que saiu pelo jardim a regar plantas, entramos na cozinha. O Twiggy dormia de barriga no azulejo. O tio Paredes seguiu procurando nos classificados sem achar nada, eu servi outro copo de MoutainDewVelhoBarreiro, o Marcelo finalmente conseguiu um orgasmo naquele jogo pornográfico, e os índios do Bibi se foderam mais uma vez.
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