Segunda-feira, Novembro 03, 2008

Mergulho no sal

É noite acabada já e na frente da casa a rede roxa ocupada por alguém roncante e os pés molhados do orvalho na relva mas tudo manda não dormir. Uns bichos estranhos voando num tráfego e zumbido constante e só a luz do sol sem ele ainda, e ainda martela de leve com peso no fundo a voz da vocalista careca da banda na madrugada cantando num Yodeling rasgante e meio desafinado, amuralhada pela bateria demente daquele magro de moicano suando sentado na banqueta baixa de madeira – os braços frenéticos. Mariazinha de blusa algodão gola v plissada e leve de frente pra mim, eu falava da mosca presa no âmbar cor de mel que no decote pingava da corrente prata no pescoço. E aí naquele breque inicial da segunda música ouvi o olho da Mariazinha gritar e toquei seu pescoço e senti o suor e o roçar da corrente e avancei um beijo na boca dos lábios finos e o gosto dum recente cigarro. E a noite toda depois disso parecia aquele beijo interminável dançante e mordido com pausas curtas pra beber e fumar e respirar quietos por fora. A trilha sonora que vinha do palco (tapete bege nuns compensados sobre vários engradados de cerveja) era da banda Verdureira Friqui, um caos barulhento e sujo de garagem esfumaçada. A gente não disse nada sério o show inteiro e eu tremia um pouco e olhava naqueles olhos uns caminhos doídos escondidos no preto. E então rolava outro beijo e mais silêncios de frases que só desconversavam. A Verdureira Friqui abandonou o palco recolhendo instrumentos e aí retumbou pelas caixas de som aquele hardcore inglês com letra linguajar chulo que sempre esqueço e não sei quem toca. E Mariazinha pegou minha mão e era a hora que não precisava ser e me vazou um olhar canino de souvenir definitivo e saiu, girei a banqueta pro balcão e bebi uma dose num gole pedi outra e vi no espelho sujo atrás do barman a blusa branca de algodão desaparecendo atrás das portas fechadas. Minha mão esquerda apalpando aleatoriamente as ninharias dentro da bolsa. Outra dose posta na minha frente. E agora que o sol apareceu todo percebo o ronco alto vindo da rede roxa na frente da casa. E ouço também como se acordasse o quebrar rouco e grave das ondas seis terrenos abaixo. E me decido não tão descontente por um mergulho. E olho pra trepadeira nas treliças de arame, umas formigas e insetos rodeando o íntimo duma tumbérgia aberta. Parecem tão tranqüilos os bichos pousados na carne da flor. Penso em fotografar mas desisto. Passo a língua nos lábios. E saio caminhando na pressa inevitável de ansiar o mergulho gelado no sal de qualquer onda que venha.

2 Urros e Sussurros:

Anónimo disse...

E aí, Tiagão! Quanto tempo, meu véio. Tô com saudade dos nossos papos nos churras do Coberta (eu já falo como se eu não morasse mais no Ipanema... que coisa). Qualquer sexta eu fico por lá. Abraço e se falemo. Em breve, espero.
Ricardo.

Thomé disse...

Pois, é, Dom Ricardo, a recíproca é real. breve, breve, certo. abraço, Thomé.