Terça-feira, Novembro 11, 2008

Novo endereço

A partir de hoje, agora, já, EscárniOficina passa a atender em novo endereço. Só o que muda é a apresentação e a residência. A idiotice estapafúrdia lambuzada de experimentação leviana continua a mesma. Clique no link abaixo e espione:

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Segunda-feira, Novembro 03, 2008

Mergulho no sal

É noite acabada já e na frente da casa a rede roxa ocupada por alguém roncante e os pés molhados do orvalho na relva mas tudo manda não dormir. Uns bichos estranhos voando num tráfego e zumbido constante e só a luz do sol sem ele ainda, e ainda martela de leve com peso no fundo a voz da vocalista careca da banda na madrugada cantando num Yodeling rasgante e meio desafinado, amuralhada pela bateria demente daquele magro de moicano suando sentado na banqueta baixa de madeira – os braços frenéticos. Mariazinha de blusa algodão gola v plissada e leve de frente pra mim, eu falava da mosca presa no âmbar cor de mel que no decote pingava da corrente prata no pescoço. E aí naquele breque inicial da segunda música ouvi o olho da Mariazinha gritar e toquei seu pescoço e senti o suor e o roçar da corrente e avancei um beijo na boca dos lábios finos e o gosto dum recente cigarro. E a noite toda depois disso parecia aquele beijo interminável dançante e mordido com pausas curtas pra beber e fumar e respirar quietos por fora. A trilha sonora que vinha do palco (tapete bege nuns compensados sobre vários engradados de cerveja) era da banda Verdureira Friqui, um caos barulhento e sujo de garagem esfumaçada. A gente não disse nada sério o show inteiro e eu tremia um pouco e olhava naqueles olhos uns caminhos doídos escondidos no preto. E então rolava outro beijo e mais silêncios de frases que só desconversavam. A Verdureira Friqui abandonou o palco recolhendo instrumentos e aí retumbou pelas caixas de som aquele hardcore inglês com letra linguajar chulo que sempre esqueço e não sei quem toca. E Mariazinha pegou minha mão e era a hora que não precisava ser e me vazou um olhar canino de souvenir definitivo e saiu, girei a banqueta pro balcão e bebi uma dose num gole pedi outra e vi no espelho sujo atrás do barman a blusa branca de algodão desaparecendo atrás das portas fechadas. Minha mão esquerda apalpando aleatoriamente as ninharias dentro da bolsa. Outra dose posta na minha frente. E agora que o sol apareceu todo percebo o ronco alto vindo da rede roxa na frente da casa. E ouço também como se acordasse o quebrar rouco e grave das ondas seis terrenos abaixo. E me decido não tão descontente por um mergulho. E olho pra trepadeira nas treliças de arame, umas formigas e insetos rodeando o íntimo duma tumbérgia aberta. Parecem tão tranqüilos os bichos pousados na carne da flor. Penso em fotografar mas desisto. Passo a língua nos lábios. E saio caminhando na pressa inevitável de ansiar o mergulho gelado no sal de qualquer onda que venha.